<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679</id><updated>2012-02-16T02:58:08.686-08:00</updated><title type='text'>Textos escritos por Pedro Schprejer</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>15</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4769185483277950511</id><published>2010-03-16T19:09:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T19:12:18.911-07:00</updated><title type='text'>Aspectos da Praia de Copacabana (Revista piauí, março de 2010)</title><content type='html'>Zona cinzenta de lei estimula mercado negro de derrières&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O cartão fica escondido, mas é só pedir com jeito que o colega pega o das bundas." O rapaz, um jornaleiro de Ipanema, cochicha e olha para os lados. É cauteloso como um espião inglês que, em tempos mais heróicos, se esgueirasse por Berlim com segredos de submarinos soviéticos no forro do sobretudo. Ele prefere não se identificar ao dar a dica sobre um novo mercado negro na Zona Sul. Em plena luz do dia, turistas e nativos concupiscentes estariam consumindo fotografias nada cristãs de quatro senhoritas em biquínis sumaríssimos, desses cuja quantidade de pano não dá para tecer a luva de um duende mirradinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fotos estão estampadas em três cartões-postais que celebram as virtudes calipígias da mulher carioca. Foram tiradas na Praia de Copacabana pelo fotógrafo Fábio Vidigal, de 58 anos, um dos mais experientes do ramo. (Sim, existe um ramo.) Na ocasião, há uns cinco anos, o diligente Vidigal contratou um motorista de van, um segurança e um produtor de elenco, o qual compareceu com as moçoilas. Duas loiras e duas morenas, as quatro de ótima cepa. O figurino consistia nas peças supramencionadas, cedidas por uma grife local. Presume-se que as quatro fossem belas, mas dificilmente saberemos. Só por trás não dá para ter certeza. Vidigal não revela rostos, só derrières e adjacências.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa primeira imagem, as quatro desfilam seus abundantes atributos pelo calçadão. Numa segunda, sempre de costas, erguem os braços, gesto a princípio meio gratuito, não fosse o benefício de tensionar músculos e delinear silhuetas. Se o admirador esticar um pouco o pescoço, até verá a praia ao fundo. No último postal, as donzelas se bronzeiam de bruços, fios dentais à vista, apoiadas sobre cangas estendidas na areia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vidigal ofereceu o trabalho a um velho conhecido, o fotógrafo e empresário Aldo Colombo, dono da editora de mesmo nome. É a mais tradicional do ramo dos postais, bem servindo à clientela desde 1918. As fotos ilustraram os cartões Sol, Mar e Alegria, Praia de Copacabana e Aspectos da Praia de Copacabana, este de título mais erudito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da penca de admiradores internacionais, as modelos sem rosto são provavelmente as mais ilustres anônimas cariocas. Muitos homens já perderam a cabeça por causa dos Aspectos. Um deles, apaixonadíssimo, chegou a implorar o telefone "da loira de biquíni azul". Vidigal não deu. O trabalho é sério e, além do mais, as meninas não estão de costas à toa. Afora a questão da privacidade, existem razões jurídicas e estéticas para tanto. Vidigal explica: "Do ponto de vista legal, é importante para, no futuro, evitar processos ou cobranças de direitos de imagem. Do ponto de vista estético, o pessoal gosta de ver o derrière mesmo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que causa espanto ao carioca de alguma memória é a atual escassez de postais como o das quatro moças. Até ontem, bastava andar 100 metros num bairro frequentado por turistas para dar de cara com uma vasta oferta de bumbuns fotogênicos. Hoje as fotos de Vidigal são os únicos exemplares em circulação, e já não é tão fácil encontrá-las.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A reviravolta teve início em 2005, ano em que a governadora Rosinha Garotinho sancionou a lei 2813, de autoria da deputada Alice Tamborindeguy. O projeto proibia a comercialização de "fotos de mulheres em trajes sumários, que não mantenham relação ou não estejam inseridas na imagem original dos cartões-postais de pontos turísticos". Em bom português: dali em diante, nádegas em postal, só as inseridas no contexto, como se diz nas melhores rodas. Isto é, na praia e, com boa vontade, no Carnaval. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A medida gerou apreensão nas seis empresas de cartão-postal em atividade na cidade. Sob pena de multa, diminuiu a circulação de traseiros descontextualizados. A boa intenção da lei era combater a propaganda do turismo sexual. A redação, entretanto, criava zonas muito enevoadas, sujeitas a grandes latitudes de interpretação. O que seria exatamente "manter relação com a imagem original"? Tamborindeguy explicou a Veja: "Close de bumbum com um pouquinho só de areia não pode. Quem garante que aquela areia é mesmo de Copacabana?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em maio de 2009, o governador Sergio Cabral sancionou uma versão atualizada da 2813 e exigiu fiscalização nos pontos-de-venda. Pouco depois, as musas de Copacabana desapareceram da paisagem, confiscadas pela Polícia Civil. Depreende-se que não se inseriam na paisagem. Ou talvez sim. Ao cabo de inúmeras trocas de ideia, as autoridades concluíram pela legalidade dos quadris. Afinal, todas elas estavam, apropriadamente, na praia. Era o mesmo raciocínio de Vidigal: "Lógico que fotografar mulher de biquíni no Cristo seria pura sacanagem. Mas na praia, qual o problema?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a decisão, alguns jornaleiros mais audazes, ou mais versados na interpretação das leis, voltaram a exibir as fotos. Outros, temendo a mão forte da Justiça, preferem mantê-las como mercadoria escusa. Muitos não sabem até hoje se elas estão ou não estão proibidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodolpho Machado tem 76 anos e é o decano dos cartões-postais do Rio. Sabe tudo da atividade, na qual trabalha há mais de 40 anos. Após décadas como fotógrafo de jornais como Última Hora e O Globo, fundou em 2000 a Rodolpho Machado Fotografia, que já imortalizou o Rio de Janeiro em 337 postais. Ele acha que transformar mulheres seminuas em chamariz turístico é coisa de péssimo gosto. Além do mais, Machado tem um olho para o futuro, para a permanência. O Cristo, seu modelo preferido, jamais envelhecerá. O mesmo não se pode dizer das moças na praia. "Muitas dessas modelos que estão nos cartões já são bisavós. Veja pelos biquínis e penteados delas", diz, com razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seja como for, é provável que as quatro modelos acabem sucumbindo não aos mandos da lei, mas aos avanços da tecnologia. O jornaleiro Michael dos Santos é cético quanto ao futuro do negócio de Vidigal: "A câmera digital e o celular estão matando os postais. Quem vai entrar numa banca perguntando baixinho por fotos de bunda, se pode ir à praia e fotografar 100 bundas num instante?" Deve ser verdade, pois, há mais de um ano na profissão, Michael garante nunca ter visto um só postal das quatro princesinhas de Copacabana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4769185483277950511?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4769185483277950511/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2010/03/aspectos-da-praia-de-copacabana-revista.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4769185483277950511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4769185483277950511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2010/03/aspectos-da-praia-de-copacabana-revista.html' title='&lt;strong&gt;Aspectos da Praia de Copacabana&lt;/strong&gt; (Revista &lt;em&gt;piauí,&lt;/em&gt; março de 2010)'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4421352700991002682</id><published>2010-01-21T11:39:00.000-08:00</published><updated>2010-01-21T11:43:20.661-08:00</updated><title type='text'>MATISSE, MIRÓ E STALLONE JUNTOS</title><content type='html'>O mercado internacional de arte tem seu novo Picasso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Revista &lt;em&gt;piauí&lt;/em&gt;, janeiro de 2010) &lt;br /&gt;                        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antonina Gmurzynska foi uma colecionadora e negociante de artes apaixonada pela avant-garde do Leste Europeu. Em sua missão de conferir a Rodchenko, Kandinsky e Malevich o prestígio que mereciam,vasculhou a Europa em busca de obras deles até então pouco reconhecidas. Estava ciente de ter descoberto uma pequena mina de ouro. Em 1965, ela inaugurou sua própria galeria em Colônia, na então Alemanha Ocidental. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Templos da sofisticação, as duas sedes atuais da Galerie Gmurzynska nas cidades suíças de Zurique e St. Moritz já ostentaram em suas paredes obras de Picasso, Monet e Degas, entre outros. No início de dezembro, outro nome de peso veio somar-se a este casting: Sylvester Stallone. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acompanhado de um guarda-costas, Stallone esteve presente à Art Basel Miami Beach 2009, a maior feira de artes norte-americana, realizada entre os dias 3 e 6 de dezembro, na Flórida. O público, ao se deparar com o homem corpulento, de paletó preto, gravata roxa e óculos escuros, deve ter tido a sensação de que algo estava fora do lugar. Não se tratava de uma performance  de arte contemporânea: rodeado por jornalistas, o ator, em carne, osso e músculos, exibia orgulhoso algumas das obras que pintara ao longo de trinta anos dedicados à arte (Stallone é um ferrenho colecionador, com obras de Rodin, Monet, Dali e Warhol em seu acervo pessoal). No estande da Gmurzynska, nessa mostra internacional, os quadros do ator dividiam espaço com pinturas de Yves Klein e do colombiano Botero, um de seus ídolos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Stallone batizou sua exposição de “The Electric Burst of Creativity (A Explosão Elétrica da Criatividade)”. Em seu primeiro vernissage, Sly – apelido carinhoso pelo qual o ator é conhecido nos Estados Unidos – foi quase tão lacônico quanto seu personagem John Rambo: respondeu à meia dúzia de perguntas dos repórteres e desapareceu. Como qualquer artista que se preze, deve se sentir incomodado ao dar explicações sobre sua obra. “Não diria exatamente que tenho talento. Eu não estou pintando apenas por pintar. Quero ser verdadeiro”, tentou explicar. Humilde, contou que as telas, até então, haviam servido exclusivamente como “presentes para parentes”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes mesmo de a feira abrir para o público, dois quadros assinados pelas mesmas mãos que castigaram adversários em Rocky já haviam sido arrematados. Um dos compradores foi o bilionário de Las Vegas Steve Wynn, que levou para a sua coleção – uma das mais valiosas do mundo, com obras de Cézanne, Picasso, Rembrandt e Van Gogh – as telas Toxic Superman e Trapped Ideals, adquiridas por um total de 90 mil dólares. Nada mal para um estreante no mercado – embora um Yves Klein na parede ao lado estivesse saindo pela bagatela de 12 milhões de dólares.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A exposição tornou-se um assunto de primeira importância para a imprensa. O Daily Mail de Londres a encarou com seriedade, definindo as telas como “expressionistas” e “muito coloridas”. Isabel Lafont, jornalista de artes do El País, qualificou o talento de Stallone nas belas-artes como “não desdenhável”.  Em tempo real, o Twitter de artes da revista Time Out sintetizou o que ocorria em Miami Beach: “Vendas, sol e pinturas de Sly Stallone.” Mais debochado, o tablóide New York Post e o site da rede nbc de Miami brincaram: “Rocky acerta a tela” e “Stallone vence por nocaute na Art Basel”.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trapped Ideals é um autorretrato melçancólico e caricatural, com uma estética pop. Na tela, o pintor realça os olhos caídos e a boca torta – fruto de uma paralisia facial ocorrida no parto. Já Toxic Superman mistura um caótico borrão de cores com a figura deformada de um homem forte, que parece usar o uniforme do Super-Homem. O pintor explicou aos jornalistas que a obra, concluída em 1991, expressa “os altos e baixos de Hollywood”. “A sociedade faz com que seja difícil para um homem tornar-se um homem”, disse, enigmaticamente. Em seguida, Stallone, que se especializou em interpretar brucutus como Rocky, Rambo, Falcão e Cobra sentenciou: “O macho americano está em extinção.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pintura parece ter levado Sly, filho de um cabeleireiro e uma dançarina italianos, a desfrutar dos círculos mais aristocráticos. Na feira de artes, ele permaneceu o tempo todo colado à princesa Michael de Kent, integrante da família real britânica, e consultora da Galerie Gmurzynska. Convicta do talento de seu mais novo protegido, a princesa declarou que um quadro de Stallone não é para quem quer, mas para quem pode. Curiosamente, poucas horas antes da abertura da Feira, agentes federais haviam irrompido pelos salões para confiscar alguns quadros que a Galeria Gmurzynska pretejndia expor. As obras foram apreendidas para quitar uma dívida de 767 mil dólares com a galeria nova-iorquina Edelman Arts. Nenhum Stallone foi levado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4421352700991002682?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4421352700991002682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2010/01/matisse-miro-e-stallone-juntos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4421352700991002682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4421352700991002682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2010/01/matisse-miro-e-stallone-juntos.html' title='MATISSE, MIRÓ E STALLONE JUNTOS'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-1215694023426273170</id><published>2009-07-14T10:43:00.001-07:00</published><updated>2009-07-14T12:03:06.381-07:00</updated><title type='text'>O Aviador (piauí)</title><content type='html'>Ainda que de Papel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde de 2 de junho, terça-feira, dia útil, o estudante de engenharia -Leonard Ang lançava aviõezinhos de papel no Parque da Aclimação, em São Paulo. Parecia não ter mais o que fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo no primeiro lançamento, seu aeromodelo decolou com tal ímpeto que foi aterrissar no alto da concha acústica. Uma senhora comentou: "Nossa, desse jeito você já pode participar do campeonato mundial!" Ficou claro, nesse momento, que ela ignorava duas coisas: primeiro, que existe, sim, um campeonato mundial de aviõezinhos de papel; segundo, que ela estava falando com o detentor do título de campeão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonard Ang, de 28 anos, não se aborreceu. Já se acostumou ao fato de que pilotos de aviõezinhos não desfrutam do prestígio dos heróis do futebol (nem do vôlei, do tênis, do badmington, da bocha). Um mês antes da apresentação no parque, ele vencera a categoria "duração de vôo" do Red Bull Paper Wings, a Copa do Mundo dos aviõezinhos de papel, em Salzburgo, na Áustria. O título não lhe trouxe medalha, taça, dinheiro e - como se vê - muito menos fama. "Eu prometi que rasparia o cabelo se vencesse. Vai ver que é por isso que ninguém me reconhece", brinca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filho de imigrantes asiáticos - o pai veio da Indonésia e a mãe, de Taiwan -, Ang é baixo, forte e tímido. Na escola, nunca perturbou a aula jogando gaivotas, nome vulgar do aeromodelo. Só veio a se interessar por aviõezinhos de papel há três anos, quando soube que seria realizada a primeira edição do Paper Wings. Na ocasião, não conseguiu o índice para chegar à final. "Fiquei nervoso na hora do lançamento", explica. Três anos mais tarde, depois de treinar muito e de aprender a controlar os nervos, classificou-se nas eliminatórias de São Paulo junto com outros três brasileiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O torneio mundial reuniu 253 competidores de 83 países. Além da duração de vôo, havia as modalidades "distância" e "vôo acrobático". Na categoria em que competiu, Ang superou um suíço e um israelense. Seu avião singrou os céus ao longo de fantásticos 11,66 segundos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem acaba de se decepcionar, é importante dizer que, se parece pouco, decididamente não é. Quando atirada por um brasileiro comum - desses que no escritório ou na sala de aula, por falta do que fazer, se sentem compelidos a transformar em aviãozinho a planilha Excel ou o dever de química -, a aeronave dificilmente planará por mais de 5 segundos. Tente que você verá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ultrapassar a primeira dezena de segundos, Ang treinou metodicamente durante um mês, unindo a preparação física à pesquisa tecnológica. Um piloto de aviões de papel deve ser ao mesmo tempo atleta e projetista. Daí o grande número de engenheiros e físicos que tomam parte nos torneios. O segredo, de acordo com Ang, está em conjugar o melhor arremesso com o avião mais eficiente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No campeonato em Salzburgo, disputado em maio, os aeromodelos foram confeccionados na hora, apenas com uma folha de papel sulfite a4. Nada de cola ou grampo. Uma vez usados, todos os aviões foram para o lixo - inclusive o vencedor. (Uma gaivota, por mais eficiente e tecnologicamente avançada que seja, não sobrevive a mais de dez lançamentos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fabricar o seu protótipo, Ang baseou-se no aviãozinho do americano Ken Blackburn, considerado o Pelé do ramo. Engenheiro aeronáutico a serviço da Força Aérea americana, -Blackburn já escreveu várias obras sobre o assunto, tais como O Livro dos Aviões de Papel, 365 Tiny Paper Air Planes [365 Miniaviõezinhos de Papel] ou Kid's Paper Air Planes [O Livro dos Aviões de Papel para Crianças]. Para os mais aplicados, o autor publicou também, na internet, um tratado sobre a aerodinâmica dos aviões de papel, com interessantes capítulos dedicados à viscosidade dos fluídos, coeficientes de decolagem e ângulos diedros, além de uma útil bibliografia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais de dez anos, Blackburn ocupou o posto de senhor das artes de manter aviõezinhos no ar. Só recentemente seu nome foi substituído no Guinness pelo do japonês Takuo Toda, que conseguiu sustentar um vôo de 27,9 segundos - 3 centésimos acima da marca alcançada por Blackburn no longínquo ano de 1998. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os conhecimentos de física adquiridos na faculdade de engenharia ajudaram Leonard Ang a compreender os complexos estudos de Blackburn. Ele aprendeu a prever fenômenos aerodinâmicos como escoamento de ar, resistência e turbulência. Foram mais de 400 aviões até chegar ao modelo atual, com catorze dobras. A confecção de cada exemplar requer no mínimo 2 minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o respaldo da experiência, Ang descobriu, entre outras coisas, que é imprescindível vincar as dobras com bastante força, de maneira que o protótipo resulte o mais fininho possível. "Isso reduz o atrito com o ar." Ele percebeu ainda que um lançamento perfeito depende de diferentes variáveis. "O passo número um é identificar o centro de massa do modelo", diz, sem se dar conta de que poucos mortais reconheceriam um "centro de massa", ainda que o conceito lhes fosse formalmente apresentado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para permanecer mais tempo no ar, explica Ang, o aviãozinho deve seguir uma trajetória quase vertical, o que exige movimentos bem coordenados da parte do lançador. Ele deve flexionar os joelhos, inclinar o tronco para trás e largar o braço. A sequência lembra muito o que faz Roger Federer na hora do saque (antes de a bola encostar na raquete), mas Ang prefere a imagem do arremessador de dardo. "O dardo e o avião pedem movimentos parecidos. O corpo funciona mais ou menos como uma catapulta", diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora já possa ser considerado um ás, Ang não tem a ambição de superar o recorde mundial, 10 segundos acima do seu melhor tempo, de 17,7 segundos. Pretende no máximo defender o título no próximo campeonato. Até lá, talvez altere seu modelo vencedor, pois durante a competição na Áustria ele observou, nos aviões alheios, pequenas variações da gaivota de Blackburn. Chegou mesmo a se envolver numa intriga de espionagem industrial que, na outra ponta, foi protagonizada pelo israelense Gil Dotan: "Ele ficou olhando para descobrir como eu dobrava o meu avião e então eu fiz igual: fiquei olhando para descobrir como ele fazia o dele." Mas Leonard Ang se justifica, com a seriedade dos acadêmicos: "Era interesse científico". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Texto publicado pela Revista piauí (Número 34, julho de 2009)&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-1215694023426273170?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/1215694023426273170/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-aviador.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/1215694023426273170'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/1215694023426273170'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-aviador.html' title='O Aviador (&lt;em&gt;piauí&lt;/em&gt;)'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4439638127092118118</id><published>2009-07-14T10:37:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T12:05:56.101-07:00</updated><title type='text'>Não Escuta que Eu Grampo (piauí)</title><content type='html'>As originalidades de uma rádio de Brasília&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sexta-feira, 1º de maio, o ouvinte do Distrito Federal que sintonizou o rádio na frequência 104,7 MHz se viu diante de um espesso enredo: "O detetive Virgulino Teixeira foi contratado pela dondoca Marilda para seguir os passos do marido dela, o empresário Aderbal. Ao instalar escutas telefônicas na casa e no escritório do empresário, o detetive descobriu um esquema de superfaturamento." Sob os acordes dramáticos de um tango de Piazzolla, a trama se adensava: "Agora, Virgulino quer dinheiro do empresário para não abrir o bico sobre a falcatrua." O próprio Virgulino tratou de se explicar: "Isso não é chantagem. Isso é toma-lá-dá-cá." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso já vinha se estendendo havia cinco dias. Na segunda-feira anterior, Virgulino anunciara à dondoca Marilda: "Vou colocar uma escuta telefônica na sua casa. Sou conhecido em todo o universo investigativo como Araponga Grampeado." Na terça, dondoca Marilda começou a hesitar: "Detetive Virgulino, não me leve a mal. Mas ouvi dizer que ficar instalando essas escutas por aí pode dar... pode dar..." Dondoca Marilda parecia ter medo da palavra. Com um suspiro, soltou alarmada: "Pode dar cadeia!" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na quinta, diante da descoberta de que o marido era corrupto, dondoca Marilda sugeriu que as gravações fossem encaminhadas à polícia. "A senhora enlouqueceu?", perguntou o detetive, ríspido. "Se a polícia receber as fitas com as minhas interceptações telefônicas, quem vai preso sou eu." Didático, Virgulino explicou: "Grampo só é legal com a autorização da Justiça, dondoca Marilda." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caso não saiu nos jornais. Só existiu para quem é adepto dos folhetins produzidos pela Rádio Justiça de Brasília. Intitulada Não Escuta Que Eu Grampo, a história de Virgulino e dondoca Marilda foi transmitida ao longo de uma semana, em cinco capítulos de cinco minutos cada. Calcada na farra dos grampos, tornou-se a atração mais comentada desde o início da emissora, em maio de 2004. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coordenadora da Rádio Justiça, Madeleine Lacsko afirma que o Supremo não teve nenhuma participação na escolha do enredo: "Imagina se os ministros do stf vão se preocupar em definir tema de radionovela." Ex-apresentadora de um noticiário da Rádio Jovem Pan, ela garante que a história nada tem a ver com os embates entre o ministro Gilmar Mendes e o delegado Protógenes Queiroz: "A rádio foi criada para dar transparência à Justiça. Eles sabem que, no dia em que houver interferência, isso tudo perde a razão de ser."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grade da emissora é composta por programas informativos e educacionais, além de transmissões titilantes de sessões do stf. Há espaço ainda para um pouco de música brasileira e debates, bem como para programas infantis que explicam o bê-á-bá do direito a crianças que precisem saber o que é um habeas corpus.  Os estúdios estão localizados no subsolo do edifício sede do Supremo, de onde a emissora transmite para todo o Distrito Federal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até junho do ano passado, as radionovelas eram esporádicas. Com a boa aceitação do público, os capítulos passaram a ser diários. Ao todo, foram escritas quase sessenta novelas. As tramas remetem a questões jurídicas que estão presentes no dia a dia do cidadão. Em As Aventuras do Defensor Público, a dupla de funcionários da Justiça Bartolomeu e Robson enfrenta temidos vilões do Planalto Central. Um Estranho no Ninho fala sobre o Estatuto do Estrangeiro. Quem Viver Verão - assim mesmo, com jogo de palavra - aborda os direitos do consumidor durante uma viagem de férias: gasolina adulterada, venda de bilhete de ônibus duplicado, extravio de bagagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cérebro por trás dos folhetins é Guilherme Macedo, jornalista brasiliense de 28 anos, especialista na cobertura do Judiciário. Para compor as tramas, Macedo se apóia no tripé Nelson Rodrigues-Dostoiévski-Cassiano Gabus Mendes. Diz que o primeiro "entendeu como se escreve diálogo no Brasil"; o segundo mostrou em Crime e Castigo "o que é a justiça na cabeça das pessoas"; quanto ao último, Macedo sustenta que a morte de Gabus Mendes representou o fim "das novelas engraçadas de crítica social" no país. Vez por outra, o dramaturgo grava participações especiais nas histórias: já fez um cão falante e um pisca-pisca vaidoso que exigia ser chamado de "Iluminador Natalino". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os personagens são interpretados por funcionários do Supremo, nas brechas do expediente. Virgulino Teixeira recebeu a voz de William Galvão, apresentador do noticiário da própria Rádio Justiça. Dondoca Marilda foi vivida por Odette Rocha, funcionária concursada do stf. Os dois são o Humphrey Bogart e a Lauren Bacall da Rádio Justiça, o par mais constante das peças de Macedo. O elenco de apoio varia. Luiz Flávio Borges D'Urso, presidente da oab de São Paulo, já fez uma ponta, interpretando por telefone o Doutor Palhares, um advogado trabalhista da trama Alice no País do Trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiel a Nelson Rodrigues e Dostoiévski, Não Escuta Que Eu Grampo termina de maneira trágica - ainda que cívica. Imbuída de espírito cidadão, dondoca Marilda resolve denunciar Aderbal, o marido corrupto, mesmo depois de descobrir que ele não era infiel. "Ó, duvida cruel!", suspira, antes de mandá-lo em cana. A operação termina com a prisão de quinze pessoas, dentre as quais o detetive Virgulino Teixeira, acusado de gravar ilegalmente a conversa alheia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme Macedo defende a dura decisão de sua personagem: "Mas ela estava sendo traída! Aderbal era infiel em relação à coisa pública. Marilda se sentiu como o governo ao ter os cofres esvaziados." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera-se uma chuva de divórcios em Brasília. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Texto publicado na revista piauí (número 33, junho de 2009)&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4439638127092118118?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4439638127092118118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/nao-escuta-que-eu-grampo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4439638127092118118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4439638127092118118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/nao-escuta-que-eu-grampo.html' title='Não Escuta que Eu Grampo (&lt;em&gt;piauí&lt;/em&gt;)'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-8414250179504221764</id><published>2009-07-14T10:26:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T10:35:02.038-07:00</updated><title type='text'>Um Dia no Maior Aterro Sanitário da América Latina</title><content type='html'>Gramacho é cheio de caminhões, catadores e urubus. E agora.... caranguejos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2009&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onze horas da manhã de uma sexta-feira de janeiro no bairro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Sol avassalador. Na maltratada estrada de barro, bodes, cavalos, porcos e pessoas de todas as idades perambulam junto a uma densa nuvem de poeira e fumaça de cano de descarga.  Uma grande fila de caminhões ingressa lentamente pelo portão do Aterro Sanitário de Gramacho. Alguns estão vindo despejar lixo, outros vêm vazios para buscar o material que será levado para depósitos  de reciclagem. Antes de entrar, os caminhões são pesados por uma balança eletrônica – são mais ou menos mil pesagens por dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gramacho recebe diariamente cerca de oito mil toneladas de resíduos sólidos, enviados por seis municípios: Rio (70% do lixo carioca vem parar aqui), Caxias, Nilópolis, São João de Meriti, Queimados e Mesquita. O aterro ocupa uma área de 1 milhão e 300 mil km² e conta com 22 km de estrada de terra em seu interior. Trata-se de uma impressionante montanha de 55 metros de altura, composta por resíduos que são despejados todos os dias há mais de 30 anos, cobertos por milhões de toneladas de argila. A argila vem de uma jazida em Belfort Roxo, e é comprada a R$9,50, a tonelada. Por dia, são despejados até 20 mil m³ de argila. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Instalado pela Comlurb, em parceria com a FUNDREM -  antiga Fundação para o Desenvolvimento da Região Metropolitana, extinta no governo Moreira Franco- e a Prefeitura Municipal de Nilópolis,  em 1978, e construído sobre uma área de manguezal, de propriedade do INCRA, Gramacho já foi o maior lixão do país.  Até 1995, os detritos eram simplesmente jogados no local, sem que fossem tomados grandes cuidados com o impacto ambiental gerado e a capacidade do solo para alocar os materiais. Em suma, o lixão era uma verdadeira catástrofe ambiental que enunciava uma tragédia ainda maior: caso não houvesse uma intervenção, o solo poderia ceder, o que provavelmente dizimaria a vida em uma grande área de vegetação e em boa parte da Baia de Guanabara. Diante de tal risco, teve início a missão, assumida pela Prefeitura do Rio de Janeiro, de transformar o lixão no maior aterro sanitário da América Latina.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua sala, dentro de uma pequena casa na entrada do aterro, o Coordenador de Projetos de Gramacho, Lúcio Vianna mostra, com orgulho, fotografias aéreas do local feitas na época do lixão e recentemente. “Gramacho é uma escola. É uma referência de operação, não de localização. Toda empresa que trabalha com aterro sanitário deveria passar um tempo aqui”, entusiasma-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcio começou a trabalhar na Comlurb como mecânico de máquinas, no extinto Aterro do Caju. Há mais de 20 anos lidando com o tratamento do lixo, diz que não consegue se ver fazendo outra coisa:“Lixo é uma cachaça, entra na veia e você não esquece mais”, brinca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucio é o responsável por coordenar a gestão do aterro. O trabalho dos técnicos é árduo. Para evitar qualquer vazamento, ou rachadura, a área precisa ser controlada 24 horas por dia através de medições e relatórios. Nos últimos anos, a imprensa noticiou algumas vezes riscos de acidentes ambientais no local, que é geotecnicamente instável. Com a sua vida útil prevista tecnicamente esgotada desde 2004, Gramacho merece uma série de cuidados especiais, como acompanhamentos diários de potenciais deslocamentos verticais e horizontais do solo. O aterro está em processo de desativação, à espera da inauguração de um novo local. Há anos está em trâmite um projeto para construção de um novo aterro em Paciência, na Zona Oeste  do Rio. Enquanto isto – ou alguma outra solução – não sai do papel, Lucio e sua equipe trabalham incessantemente para equilibrar a grande montanha de lixo e argila sobre um solo lodoso – mais ou menos como um objeto bastante pesado em cima de uma gelatina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um aterro sanitário ideal deve possuir uma série de características técnicas que garantam o isolamento entre o lixo e o solo, para que os lençóis freáticos não sejam contaminados pelo chorume, o liquido extremamente tóxico gerado pela decomposição do material. Para tanto, o solo deve ser impermeabilizado por uma camada de polietileno de alta densidade.  Como o local do aterro não foi planejado de antemão, mas adaptado para uma situação emergencial, foi necessário um grande investimento na busca de soluções. Uma delas é a estação de tratamento do chorume, uma pequena usina que, através de complexos processos químicos, filtra o liquido residual, transformando-o em água potável. Ao lado das máquinas há um grande, sinistro e mal cheiroso lago negro, composto pelo chorume que é captado entre os resíduos. É impressionante ver a água saindo cristalina depois de sofrer o processo que filtra até 97% da matéria orgânica.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro projeto que está sendo implementado é a queima do biogás, constituído por metano, gás carbônico(CO2) e água (vapor), produzido pela decomposição de matéria orgânica. Serão construídos 225 poços de captação. A queima do gás, ou sua conversão em energia, poderá ser vendida no mercado internacional de Créditos de Carbono, como previsto no Protocolo de Quioto.  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Lucio aponta para os caminhões que estão perfurando o solo para instalar tubos por onde o gás a ser queimado irá passar:“Isso é o futuro, o aterro vai gerar energia, e um dia você vai ver isso aqui sem lixo, com uma pracinha, uns brinquedos...” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Urubus:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paisagem de Gramacho é impressionante. Tudo em volta é barro, caminhões e urubus são onipresentes, assim como as moscas e outros insetos. Ao lado do aterro, torres de uma refinaria da Petrobrás soltam altas labaredas. Ao longe, à esquerda se vê a bela Serra dos Órgãos, com o Dedo de Deus ao fundo. Do outro lado, se pode vislumbrar o Pão de Açúcar. Em frente, no horizonte está a Baía de Guanabara. A subida até o ponto onde os caminhões estão despejando o lixo tem que ser feita de carro. Lá em cima estão os catadores que sobrevivem retirando do aterro material que vendem para depósitos de reciclagem. Nas imediações existem cerca de 40 depósitos. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;No meio de uma infinidade de lixo – produto de apenas um dia de coleta –, sob uma temperatura que facilmente chega às raias dos 40 graus, centenas de catadores separam dos resíduos daquilo que as cidades consomem o seu sustento. O cheiro é indescritível e os insetos compõe nuvens imensas e assustadoras. Os catadores não possuem máscaras, luvas ou roupas especiais. Nem mesmo um local próximo onde possam beber água. São cerca de 1300 catadores cadastrados, que retiram em média 200 toneladas de lixo por dia. Alguns, 160, são membros de uma cooperativa, tendo carteira assinada e direitos trabalhistas. Outros fazem parte de frentes de trabalho independentes. Para se proteger do sol, eles carregam barracas de praia e usam gorros na cabeça. Botas nos pés e meiões de futebol evitam cortes. O lixo que separam é guardado em tonéis que carregam nos ombros e na cabeça. Caminhões enormes despejam toneladas de lixo incessantemente. O chão treme com o tráfego intenso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando despeja o lixo, eles caem dentro.” , explica Marcos Francisco Cherém, técnico da Comlurb, trabalhando há 22 anos no aterro. Os catadores se deslocam em função do local determinado na hora para o despejo dos resíduos. Quando eles terminam de retirar o que acham que pode ter algum valor, a montanha de lixo está pronta para ser aterrada pelos caminhões de argila. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;José Pereira, 37 anos, chegou da pequena Lagarto, no sertão do Sergipe, há apenas um mês. Veio para o Estado do Rio a convite de um irmão, também catador. Pai de 4 filhos, José considera o trabalho de cortador de cana que realizava antes mais duro e perigoso do que o que faz atualmente. Mesmo assim, não quer ficar muito tempo por aqui:“É mais fácil ganhar a vida aqui, mas só vou ficar por três meses. Depois me mando para Ribeirão Preto. Soube que lá tem muitos canaviais que estão precisando de mão-de-obra, e eles pagam melhor”, conta José. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A bela morena Carolina Lessa, de 27 anos, trabalha catando lixo há 3 meses. Ela afirma que veio para Gramacho porque foi o único local em que arrumou emprego após ter perdido todos os documentos. “É um trabalho sujo, com certeza, mas é um dinheiro limpo”, arrisca – esse parece ser uma espécie de lema dos catadores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma senhora simpática aparece sorridente mostrando alguns pares de elegantes sapatos femininos – até que bem conservados. Quem os teria jogado fora? E por qual motivo? Não se sabe, nunca se saberá: os objetos aqui já não tem história, seu valor é apenas material. Na economia da reciclagem, um quilo de plástico vale entre 20 e 25 centávos. Quando chove e o calor dá uma trela é melhor para trabalhar, mas o material molhado é vendido por um preço menor, explicam os catadores. Garrafas PET, plástico fino e alumínio são os produtos mais valiosos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Toda enzima é uma proteína, mas nem toda proteína é uma enzima”, assim está escrito em uma folha de caderno, com data de 24/4/04 e letra de menina. Ao lado, uma singela placa de madeira com nomes pintados em várias cores e a inscrição “Chamadinha”.  No mar de lixo que os caminhões despejam, encontra-se de tudo: um guarda-chuva, uma boneca aleijada, uma torradeira, uma vassoura que ironicamente foi parar no lixo, fraldas, raquetes quebradas, fitas VHS, restos de tudo o que é possível consumir. Restos e sempre incontáveis urubus ao redor.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Época de festas é bom porque o pessoal usa muito plástico: copo, garrafa, essas coisas. Fortalece para nós”, comenta Luís Pinto, Morador de um barraco no Jardim Gramacho, trabalhando no aterro desde os 12 anos. Um estudo realizado pela empresa SA Paulista, em 2004, a mando da Comlurb revelou que a economia que gira ao redor do Aterro de Gramacho reúne cerca de 15 mil trabalhadores e movimenta R$ 1,4 milhão por mês. São pessoas que atuam em depósitos de lixo, depósitos de reciclagem, supermercados e bares, prostitutas, caminhoneiros e diversas outras funções. O fechamento do aterro é, portanto, um problema social para quem vive do lixo, para o qual as autoridades e as associações de catadores estão procurando uma solução.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Caranguejos&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há poucos metros do aterro, na beira da Baia de Guanabara, a natureza nos dá uma prova de resistência e recuperação. Ali, entre o lixo e as águas poluídas, milhões de caranguejos e outras espécies substituem os urubus e mosquitos em um grande manguezal, um oásis que se desenvolveu graças à ação do homem. O mangue é resultado de um processo de mais de 10 anos de plantio de mudas e reflorestamento da vegetação, liderado pelo biólogo Mário Moscatelli. Sob um frágil caminho de palafitas de madeira, anda-se durante uma hora, quase em linha reta, sobre o mangue, até a beira da Baía de Guanabara. O caminho está sendo reconstruído, pois boa parte das tábuas de madeira foi roubada para a construção de barracos nos arredores de Gramacho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao todo, foram reflorestados mais de 100 ha da área de manguezal, com mudas de árvores como Mangue Negro, Vermelho e Branco, em toda a periferia do aterro, alcançando a foz do Rio Sarapuí.  Hoje, 50 ex-catadores de lixo vivem da pesca de caranguejos como o Guaiamum,  o Catanhanha, o Maré e o Atu. Por dia, são capturados cerca de 3 mil. Durante a caminhada, aos poucos, um cheiro de maresia vai substituindo o forte odor do aterro. O clima vai ficando mais ameno. Por fim, chegamos à Baía de Guanabara. Triste visão: sofás, pneus, bobinas bóiam na água lodosa. Para evitar que o lixo atingisse a vegetação foram construídos 5 km de cercas, que sempre precisam ser reparados por causa do das agitações da maré.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lúcio olha desolado para a sujeira da Baía e imagina o dia em que a sua missão em Gramacho se dará por completa: “Já cheguei a contar mais de 50 sofás aí. Isso sem falar dos corpos que volta e meia aparecem boiando. Um dia nós vamos encerrar as atividades do aterro. Ninguém vai se lembrar que isso foi o que foi. Imagino nós aqui, na beira da Baía, de pedalinho e Jet Sky”.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Texto publicado pela Revista da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-8414250179504221764?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/8414250179504221764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/um-dia-no-maior-aterro-sanitario-da.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/8414250179504221764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/8414250179504221764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/um-dia-no-maior-aterro-sanitario-da.html' title='Um Dia no Maior Aterro Sanitário da América Latina'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4073461624215478</id><published>2009-07-14T10:22:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T10:25:38.087-07:00</updated><title type='text'>A Terra do Mané</title><content type='html'>Pau Grande, no município de Magé, é um retrato da história da industrialização e do futebol brasileiros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2008&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Um autêntico pau-grandense é aquele sujeito que, quando lhe perguntam quem foi o maior jogador de futebol de todos os tempos, sorri orgulhosamente e responde algo do tipo: “Garrincha, é claro. Pelé era bom, mas o Mané era único”. Foi no bucólico povoado de Pau Grande que Garrincha cresceu solto pelo mato, caçando passarinhos e arriscando seus primeiros toques na bola.  Ruas vazias e silenciosas -  a não ser quando passa um dos carros de som fazendo propaganda eleitoral aos berros -,  vizinhos conversando nas varandas: a vila, localizada no sexto distrito do município de Magé,  possui cerca de 8 mil habitantes e fica no pé da Serra dos Órgãos, região de abundantes fontes de água e natureza esplendorosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história de Pau Grande remonta ao fim do século XIX, quando a Companhia América Fabril, multinacional inglesa da indústria têxtil, adquiriu um vasto terreno em Magé. No local, foram erguidos uma grande fábrica de tecidos, uma vila com casas para 1200 operários e suas famílias, um posto médico e uma escola. Moradia, luz, água, educação, era tudo de graça para os funcionários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre as árvores que compunham a paisagem que envolvia o terreno, uma, centenária e de dimensões bíblicas, destacava-se. Os ingleses, a despeito de qualquer preocupação ecológica, botaram-na abaixo, utilizando a farta madeira na construção de parte da fábrica.  Não se sabe se por arrependimento ou ironia, o nome da vila acabaria sendo uma homenagem póstuma ao tronco de cerca de 50 metros de altura, que, reza a lenda, 30 homens não conseguiam abraçar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na entrada da vila havia um portão de onde guardas da empresa controlavam o movimento de forasteiros. Mesmo a prefeitura do município de Magé só podia entrar lá com um bom motivo. Aos diretores da fábrica, todos ingleses – apenas na década de 1950 seriam admitidos funcionários brasileiros nos quadros mais elevados da empresa –, foi dado o poder de interferir na intimidade das famílias operárias, reprimindo costumes considerados  menos civilizados e ditando normas de higiene. Intervinham até mesmo em discussões entre casais e parentes, punindo aqueles que se excedessem além da conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o trabalho – realizado muitas vezes em ambientes insalubres, infestados de partículas de algodão, causando irritações nas vias respiratórias, e sob o barulho ensurdecedor das máquinas de tear – era pesado, a vida em Pau Grande tinha suas compensações. No livro Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha, Ruy Castro observa que os ingleses incutiram nos pau-grandenses a crença de que estes possuíam uma certa superioridade sobre os povoados vizinhos: “todo mundo ali, brancos, negros e mestiços, sentia-se com um pé, mesmo descalço, na aristocracia”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o pai de um recém-nascido regressava do cartório em Petrópolis, onde era feito o registro do filho, ia direto à sede da empresa para informar a chegada ao mundo de um futuro operário. O bebê tinha o nome anotado em um livro que, desde então, traçava o seu destino mais provável: aos 7 anos começaria a estudar, aos 14 receberia uma convocação para se apresentar na fábrica, e aos 44 poderia se aposentar.     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Naquela época tudo vinha da Inglaterra. No Brasil não se produzia nem parafusos”, recorda Roberto Leite Rodrigues, de 81 anos, no povoado desde os 8.  Sentado numa espreguiçadeira na varanda de sua casa, Seu Roberto, um ex-tecelão aposentado, lembra do tempo em que ocupou o cargo de presidente do Esporte Clube Pau Grande, entre os anos 40 e 50. “Ganhávamos de todo mundo que vinha aqui nos desafiar. Não tinha pra ninguém”, afirma &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Esporte Clube Pau Grande não passaria de uma modesta e simpática equipe de futebol amador, cujo grande feito foi ter vencido a liga mageense algumas vezes, não fosse o fato de ter revelado Garrincha para o mundo. Na verdade, a primeira camisa que o maior ídolo da história do Botafogo defendeu foi a do Palmeiras F.C de Pau Grande, time de pelada fundado por seu irmão mais velho, Zé Baleia. Foi com ela que Garrincha arrasou adversários no campinho da Barreira - que ainda existe no mesmo local- , driblando entre os inúmeros buracos, à beira de uma ribanceira. Assim como o Botafogo foi a base da Seleção Brasileira durante a década de 60, o elenco do temido Palmeiras F.C  formaria, em 1947, o time juvenil, e , pouco depois, adulto do E.C Pau Grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Garrincha era sacana, brincalhão e flamenguista. Um cara simples, lembro dele, já depois de famoso, voltando do Maracanã na caçamba do caminhão, junto com o povo de Pau Grande”, revela Seu Toti, primeiro treinador do craque. Quando, por razões táticas, Toti avançou Garrincha para a ponta-direita, os torcedores do E.C. Pau Grande protestaram, fazendo um abaixo-assinado para que ele voltasse a jogar na meia-direita.  O técnico, porém, resistiu à pressão e o menino das pernas tortas acabou rendendo ainda mais na nova função tática, perfeita para o seu futebol. Como os jogadores todos trabalhavam na fábrica, os treinos ocorriam apenas nas terças e quintas. Com 15 anos, o Mané amadurecia rápido e impressionava o técnico: “Quando o marcador chegava perto, ele sumia!”. Ao longo dos cerca de 30 minutos em que conversamos, Seu Toti, hoje com 85 anos, repetiu por mais de cinco vezes o mantra “Eu não ensinei nada para o Mané, ninguém ensinou. ele já nasceu sabendo: tinha um dom!” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grande amigo e colega nos anos dourados do alvinegro pau-grandense,  Malvino Freire acompanhou Garrincha também nas farras noites adentro em bares da região. Sinal dos tempos, um dos botecos em que bebiam foi comprado e transformado em igreja evangélica. Era comum encontrar Malvino, Garrincha e os irmãos Swing e Pincel bebendo na véspera de jogo do Botafogo. Conta-se que, depois de incontáveis copos de cerveja, Mané anunciava: “Amanhã vou acabar com eles, vocês vão ver”. Invariavelmente cumpria a promessa. Enquanto Garrincha alegrava o povo e conquistava o mundo, Malvino continuou trabalhando na América Fabril, no turno que ia das 6 da manhã às 3:48 da tarde. Hoje, aos 75 anos, está aposentado, como grande parte da população do povoado. As duas fábricas que a América Fabril construiu em Pau Grande agora pertencem à empresa de refrigerantes Pakera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fundado no dia 11 de agosto de 1908, por operários da América Fabril, O E.C. Pau Grande acaba de completar 100 anos.  Com a renda gerada por cerca de 150 associados, dos quais apenas a metade está em dia com a mensalidade de R$5, as comemorações tiveram que ser modestas: churrasco, baile e almoço de domingo. A única personalidade a aparecer por lá foi a ex-senadora Benedita da Silva, parceira do clube em um projeto para crianças carentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até 1983, ano em que a fábrica de tecido finalmente fechou as portas, depois de um processo agonizante de falência, todos os operários tinham uma parte do salário descontado diretamente para os cofres do clube. Além disso, a América Fabril dava alimentação e material de treinamento para os atletas.  “Já pedimos o apoio de várias empresas. A Petrobras apóia o River Plate na Argentina, mas não está nem aí para a nossa história”, afirma Seu Roberto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sede do clube há um bar com mesas onde um grupos de amigos, todos aposentados pela fábrica, passam os dias jogando buraco e conversando. Uma vitrine com troféus, uniformes e fotografias conta um pouco das glórias do time. As pequenas arquibancadas  campo em que a equipe, ainda amadora, joga, foram pintadas a pouco tempo e os vestiários passaram por reformas. O dinheiro para isso foi doado por um empresário português, dono de uma grande loja de material de construção no Rio e fanático por Garrincha, apesar de ser torcedor do Vasco. Esse senhor, porém, acabou adoecendo e a ajuda, por hora, cessou. Além das parcas mensalidades, o clube vive da renda do bar, do aluguel do campo para peladeiros e para shows. No último dia 7 de setembro foi realizada uma festa ao som do conjunto carnavalesco carioca Mono Bloco. A previsão para o público era de 10 mil pessoas. Pelo visto, as coisas começam a melhorar.            &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso aqui é um gigante adormecido. Temos que resuscitá-lo”, diz Carlos Renato Teixeira, atual presidente do clube. Com apenas 25 anos, Carlos Renato, que jogou nos juvenis do Santos ao lado de Diego e Robinho, estreou com otimismo vida de cartola. Em um certo tom de sigilo, fala dos planos de uma parceria com um empresário americano que teria se apaixonado pela história do E.C.P.G. O investidor estaria disposto a arrecadar fundos para a construção de um grande estádio, de um centro de treinamento, “no nível dos do Flamengo e do São Paulo”,  que funcionaria como uma espécie de SPA para jogadores de grandes clubes em recuperação -, e, até mesmo, de uma franquia do Mcdonalds. Carlos Renato, que sucedeu o pai no cargo, sonha em um dia ver a equipe na primeira divisão do campeonato carioca. “Mas se não tivermos patrocínio, vamos ficar assim parados por mais 100 anos”, afirma seu pai, José Renato.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O povoado possui uma creche, uma escola, um estádio e uma choperia com o nome de Mané Garrincha. A alguns quilômetros, encontra-se o cemitério onde o ex-jogador está enterrado. A lápide de número 4581, em que está gravado o seu nome, Manuel Francisco dos Santos, está rachada e em péssimo estado. Em 1985, o então prefeito de Magé, Roberto Cozzolino, construiu, no mesmo cemitério, um pequeno mausoléu para o corpo de Garrincha, porém, Rosa, irmã do craque, prefere que o corpo permaneça no local onde está, junto com os restos mortais da família. De acordo com o coveiro José Correia, o túmulo recebe poucas visitas - vez por outra, um botafoguense vai lá e estende uma bandeira para prestar homenagem. “Pelo que ele foi, merecia uma coisa mais vultosa”, reflete.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Muitos dos parentes de Garrincha ainda moram em Pau Grande, inclusive sua filha Rosângela Cunha dos Santos, reconhecida há cerca de 10 anos, depois de um exame de DNA. Desempregada, Rosângela diz estar passando por necessidades financeiras. Ela cozinha para o clube, pinta blusas para vender e divide com os outros irmãos – são 14 filhos no total – os direitos de imagem do pai. A semelhança com o rosto do Mané é impressionante. “Todos comentavam que eu devia ser filha dele, mas a minha mãe dizia para eu não dar ouvido às besteiras que o povo fala”, diz Rosângela, que afirma ter orgulho do pai e sonha em obter ajuda para construir na cidade um museu que enfim faça uma justa homenagem ao cidadão mais importante de Pau Grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Texto publicado pela Revista da Assembléia Legisladora do Estado do Rio de Janeiro&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4073461624215478?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4073461624215478/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/terra-do-mane.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4073461624215478'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4073461624215478'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/terra-do-mane.html' title='A Terra do Mané'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-1963333895343248271</id><published>2009-07-14T10:11:00.000-07:00</published><updated>2010-05-03T13:44:23.328-07:00</updated><title type='text'>Os Malditos não Renunciam</title><content type='html'>Nelson Gonçalves e Tim Maia se encontram em um cabaré.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=_49ASlaxaW0"&gt;http://www.youtube.com/watch?v=_49ASlaxaW0&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cabaré vazio, o drinque em punho, ternos entre o elegante e o cafona, luzes azuladas: a cenografia e o figurino acabam por tornar um pouco mais insólito o encontro entre esses dois personagens brilhantes e malditos de épocas tão distantes da música brasileira. A célebre reunião ocorreu em 1985. “Renúncia”, composta por Roberto Martins e Mário Rossi, foi lançada em 1942. O sucesso foi tão grande que valeu a Nelson Gonçalves o título de Rei do Rádio. A regravação foi para um disco de duetos do velho boêmio com artistas populares na década de 80.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nelson e Tim não tinham em comum apenas o vozeirão de peito aberto; suas vidas foram igualmente plenas de êxitos, ruínas, excessos, problemas com a lei, triunfais voltas por cima e estórias cabulosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando garoto, Nelson cantava acompanhando o pai, que, para ganhar uns trocados nas feiras paulistanas, tocava violino se fingindo de cego. Gago quando criança, Nelson ficou conhecido no bairro do Brás como o “Metralha”, pois pronunciava frases inteiras sem pausar para respirar, soltando as palavras como rajadas. Nelson foi jornaleiro, mecânico, engraxate, garçom e boxeador. Com um score de 24 vitórias por nocaute e duas derrotas, sagrou-se campeão paulista de boxe, na categoria meio-médios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tim era o segundo mais novo de 19 irmãos e disputava com eles as marmitas que o pai mandava entregar. Tim ensinou violão para um garotão da Tijuca, mas depois o expulsou de sua banda, Os Sputniks, por achar que ele não sabia cantar. O moleque, meio fanho, chamava-se Roberto Carlos. Na letra da cancão W/ Brasil, Tim é citado como “Síndico”, sabe-se lá porque, tratando-se de uma letra de Jorge Benjor. Talvez pela voz imponente de comandante que sempre reclamava do som nos seus shows, talvez pela manifesta intenção de se candidatar ao Senado pelo PSB. Numa reunião do partido, o cantor teria dito: “O Brasil é o único país onde, além de puta gozar, cafetão ter ciúme e traficante ser viciado, pobre é de direita”.&lt;br /&gt;Nelson: “Uma semana depois de morto estarão fazendo xixi na minha tumba”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nelson Gonçalves também tinha lá suas tiradas. Sobre a falta de memória do povo brasileiro, disse: “Uma semana depois de morto estarão fazendo xixi na minha tumba”. Sua voz era tão potente que podia cantar sem microfone. Em 1941 assumiu o cobiçado posto de crooner do Cassino Copacabana Palace, após receber o título de Rei do Radio. Antes de tornar-se celebridade, Nelson, cujo nome de batismo era Antônio, havia sido desclassificado duas vezes no programa radiofônico de calouros do compositor Ary Barroso tendo que ouvir da boca do compositor de “Aquarela do Brasil” que melhor seria se abandonasse a música e voltasse a ser garçom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1959, aos 16 anos, Tim, foi viver nos Estados Unidos – país pelo qual era aficcionado . Lá estudou inglês, mergulhou na soul music e no rhythm'n'blues e morou em 21 endereços diferentes, antes de ser deportado. A estória que se conta é que Tim teria sido preso após uma trip alucinada de Nova Iorque à Miami, ao lado de uns tipos da pesada, aprontando de tudo e mais um pouco, usando drogas e fazendo furtos. Ao ser mandado de volta, ouviu da boca de um yankee: “Nunca mais volte aqui”. Mas ele voltou, um ano antes de morrer, para refazer a mesma viagem – só que numa limusine. Tim fez questão de visitar, uma por uma, todos as 21 casas onde viveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto Tim quanto Nelson cometiam excessos com drogas. Em 1965, decadente e há anos sem cantar, Nelson foi preso com cocaína e acusado de tráfico, mas acabou inocentado. Após a ruína, quando quase foi a bancarrota, o Metralha retornaria triunfalmente às rádios. Já Tim Maia chegava a tomar três garrafas de uísque por dia. Quando aliava doses de maconha e cocaína à bebida escocesa, dava ao coquetel, consumido com os amigos noites adentro, o sugestivo nome de triatlon.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rei do Radio dominou as décadas de 40 e 50. Tim apareceu em 1970, ao ser gravado por Elis, mas o seu auge foi mesmo na década de 80, quando emplacou vários hits. Em 75 e 76 lançou os inusitados manifestos místicos com roupagem soul, Tim Maia Racional 1 e 2. Os discos acabaram virando cult e, apesar de estarem fora de catálogo por problemas judiciais, foram amplamente difundidos através da Internet, o que ajudou a criar uma nova e jovem legião de fãs do Síndico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tim já foi chamado de Louis Armstrong brasileiro. Nelson era fã incondicional de Chico Alves e pertencia a uma última geração de cantores de vozeirão grave, pré-João Gilberto, interpretes de boleros e sambas-canção. “Renúncia” foi um dos seus maiores sucessos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tim e Nelson morreram no mesmo ano, 1998, deixando saudades, histórias infindáveis e um legado musical definitivo. Cantando no cabaré, injetando um quê de deboche em uma letra melodramática, eles trocam olhares e sorrisos de cumplicidade. Identificação entre dois homens, duas forças desgovernadas que detestavam o tédio e sabiam muito bem que na vida “o difícil é saber renunciar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*texto publicado no site &lt;a href="http://www.blogger.com/www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-1963333895343248271?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/1963333895343248271/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/os-malditos-nao-renunciam.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/1963333895343248271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/1963333895343248271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/os-malditos-nao-renunciam.html' title='Os Malditos não Renunciam'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-7317038104986792407</id><published>2009-07-14T10:01:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T10:08:48.887-07:00</updated><title type='text'>O Rei do Metal no Rio de Janeiro</title><content type='html'>"Vocês têm permissão para enlouquecer"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob a chuva, do lado de fora da Arena HSBC, Thiago Silva e Renato Menezes, 25 anos, funcionários de duas importantes firmas de comércio exterior no centro da cidade, bebem vodka Smirnoff com Redbull, seus ternos já devidamente socados nas mochilas que carregam. Para o show de Ozzy, nesta quinta-feira, combinaram encontro na faculdade próxima ao trabalho. Lá, depois do expediente, tomaram o elevador até o décimo terceiro andar, e, no banheiro da biblioteca, trocaram o uniforme do batente pelo traje tradicional dos shows de rock: roupas negras, com exceção das estampas coloridas em camisetas. Ao vê-los saindo do banheiro após tamanha transformação, o bibliotecário fitou-os com desconfiança. “No ramo dos negócios existe hoje essa coisa de liderança, não pega bem que alguém nos veja com a camisa do Ozzy”, explica Renato. Thiago não concorda que a repressão seja tão forte assim, mas admite que há muito tempo não se vestia de roqueiro.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Amante da Legião Urbana e do “new metal” do Korn – banda que abriu o show de Ozzy – Daniel Alves, funcionário de uma fábrica de tintas, exibe com orgulho os cordões, brincos e tatuagens no braço direito com símbolos da banda Pearl Jam e do Super-Homem: “Meu chefe sempre elogia meu visual”. Usando óculos sem grau “só pelo prazer de usar óculos”, Daniel veio de Inhaúma, subúrbio carioca, com o amigo Mauricio Vinicius, espremido em um ônibus da linha 268 – Praça XV- Rio Centro.  “O rock é a única coisa que dura. O mundo vai acabar e só vão sobrar as baratas e o rock”, profetiza Daniel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas em Inhaúma o ritmo do cachorro louco anda em baixa: há tempos os riffs de guitarra estão abafados pelos batidões do funk. “Não tem muito o que fazer lá, a gente vai pra qualquer festa só pra não ficar em casa assistindo TV. Vou pro samba porque ir ao samba não mata ninguém, mas gosto mesmo é disso aqui”, resume Daniel, rindo, dizendo-se discriminado pelos amigos funkeiros, maioria por lá. “Mas as coisas boas tem que ser pra poucos mesmo, se ficar popular demais estraga”, pontua Mauricio, reflexivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Contini e Coca-Cola&lt;/strong&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Próximo ao pessoal do subúrbio, a galera da Rocinha bebe Contini com Coca-Cola. Sem condições de pagar pelo ingresso – a arquibancada mais barata custava R$ 70 a meia-entrada – eles vieram só para apreciar o movimento. Como não gostam de rock brasileiro, na falta de opções, promovem as próprias festas na lan house de Marcio Rodrigues, 27 anos, onde o som que rola solto é música dos anos 80. A vizinhança às vezes reclama quando eles vão para rua e sobem nos carros estacionados para dançar. Na hora de tirar uma foto, os rapazes escondem o rótulo da garrafa de Coca: “Não queremos fazer propaganda de ninguém”, justifica Marcio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eduin Portal é peruano e já era metaleiro quando chegou em São Paulo, há 14 anos. Ele canta em banda cover de Black Sabbath chamada Simphony from Hell, e vende camisas de bandas na porta de shows de rock e metal Brasil àfora. O trabalho garante o sustento da família e o ingresso: “Tenho obrigação de ver o Ozzy, pô, eu imito o cara”. Eduin e o amigo Marcos Marinho tentavam adquirir ingressos a R$50, mas os cambistas chegavam a pedir R$300 – embora houvesse ingressos de sobra na bilheteria. Uma hora antes de Ozzy entrar no palco os dois metaleiros já tinham vendido 20 peças, a R$25 cada.  Eduin queria vender pelo menos outras 20.  &lt;br /&gt;       &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Na Arena&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A organização do evento funcionou impecavelmente, mas o público acabou pagando o preço de tanto rigor. Na entrada do show, muitos foram obrigados a se desfazer de seus guarda-chuvas. Um corpulento organizador se limitava a dizer que estavam proibidos objetos “perfuro-cortantes”. “Eu não vou matar ninguém com a minha sombrinha”, retrucou uma mulher, sem sensibilizar o funcionário. Nos corredores da bela arena é proibido fumar qualquer coisa – e, teoricamente, na pista também. Seguranças de terno vigiavam tudo, e quase não foram sentidos aromas suspeitos no ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O publico, que já havia assistido ao Black Label Society e ao Korn, esperava ansioso pela entrada de Ozzy, que tocava pela terceira vez no Brasil. Para segurar a platéia enquanto o herói da noite não aparecia, guitarradas clássicas ecoavam nos autofalantes. De braços erguidos, a platéia cantava em coro os versos de Jailbreak, do AC/DC, punks, metaleiros, motoqueiros, coroas cinquentões e outros tipos humanos  convivendo harmoniosamente. Usando kilt, a tradicional saia masculina xadrez escocesa, tênis adidas, e, não raro, dreadlocks nos cabelos, os fãs do Korn conseguiram se destacar no quesito inovação.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Orgulhoso estava Bruno Matos, 18 anos, da banda de hardcore Base 02. Ele havia acabado de comprar de um funcionário da organização três baquetas usadas pelo baterista do Korn. “O cara queria R$20, mas acabou saindo por R$14, cada”. No mercado negro do metal, a palheta de Zakk Wylde, guitarrista de Ozzy e do Black Label Society, saía por R$50.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fã de Calipso e Julio Iglesias, o vendedor ambulante João Lima, 64 anos, elogiava a disposição alcoólica da galera do rock, que já tinha comprado 4 caixas de cervejas dele. “O rock não me incomoda não, até tô gostando, sou um coroa pra frente”, declarou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das 22:20h, 10 minutos antes do previsto, o telão começou a exibir um extraordinário vídeo onde Ozzy aparece em sátiras de diversos filmes e seriados. Em uma das cenas, parodiando o filme “A Rainha”, o príncipe das trevas enfia a cabeça debaixo das saias da Rainha Elizabeth. Em outra reproduzia a afamada cena de luta livre na cama, mostrada em “Borat”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o show finalmente começou, Clemer Felipe, de 18 anos, vindo de Barra Mansa, interior do Estado, não conteve a emoção. “Esse cara é tudo pra mim. Hoje é o dia mais importante da minha vida”, emocionou-se.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ozzy entra arrebentando, todo de preto, e Zakk Wylde, o virtuoso guitarrista, exibe seu corpo sarado através de colete de couro bordado com crucifixos. O publico pega fogo com os antigos sucessos do Black Sabbath, como War Pigs e Iron Man. No telão, tanques, caveiras, trens desgovernados e cenas de guerra sintetizam o pensamento do grupo. Ozzy “The Madman” Osbourne é, talvez, o roqueiro em atividade mais obcecado com o tema da loucura, recorrente em tudo que faz.  Nos seus melhores dias, o herói ex-doidão chegou de comer um morcego no palco, mas hoje, longe das drogas,  prefere fazer caretas bastante impressionates –  e o publico adora. Excitado, Ozzy autoriza todos os presentes a  ficarem “fucking crazy”. O público se deleita, mas não chega a tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com apenas metade da arena ocupada, a turma do Heavy Metal até que estava bem comedida. “Todo roqueiro é educado”, dizia a bibliotecária Lílian Reis, 50 anos. Com uma medalha de Nossa Senhora no peito e visual rock and roll, ela trouxe a filha de 22 anos. “O Ozzy é o motivo pelo qual vários roqueiros de cabelos brancos estão aqui hoje, ainda acreditando no sonho”, exaltou. Só no final houve um pequeno tumulto, quando Zakk Wylde entregou – não se sabe bem com que propósito – sua famosa guitarra estilizada ao publico. Arrependido com o gesto, Zakk quis pegá-la de volta, mas um fã agarrou-a com força, decidido a ficar com o souvenir. Os seguranças entraram em ação, e, no puxa daqui, puxa de lá, o instrumento acabou se partindo. Depois disso não houve bis e as luzes se acenderam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A galera do metal voltou calmamente para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Texto publicado no site &lt;a href="www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-7317038104986792407?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/7317038104986792407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-rei-do-metal-no-rio-de-janeiro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/7317038104986792407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/7317038104986792407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-rei-do-metal-no-rio-de-janeiro.html' title='O Rei do Metal no Rio de Janeiro'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4980398563330128518</id><published>2009-07-14T09:55:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T10:01:09.069-07:00</updated><title type='text'>A Banda Vai Passar</title><content type='html'>Acompanhamos (e perdemos) um grupo de foliões pela Banda de Ipanema&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Com Tiago Carvalho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os atores Adagoberto Arruda, Goubert David, Everton Frank e Juarez Lessa vendem petiscos no Terreirão do Samba. No dia do desfile da Banda de Ipanema, a barraquinha vira camarim. Depois de muita maquiagem, o quarteto se transforma na Embaixada das Caricatas, que já recebeu menção honrosa na Assembléia Legislativa do Rio. "Somos tombados", orgulha-se Everton, enquanto veste a saia, calça meias-arrastão e adiciona dúzias de penduricalhos à fantasia. Experiente, Adagoberto traça a estratégia para aproveitar o desfile: "Perto dos instrumentos é muita mão na bunda. Lá na frente a brincadeira é mais sadia."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Embaixada desfila na Banda há 15 carnavais. Já se vestiram de ciganas, fadas, diabinhas e enfermeiras. A fantasia deste ano é garçonetes debutantes. Inclui minissaia, blusas bufantes, coturnos e uma touca dourada com um cachorro quente coberto de paetês. Adagoberto, alto e corpulento, torna-se Sandra Helena. O elástico Goubert, bailarino profissional, vira Neusa Íris. O contido Everton Frank assume a personalidade de Tina Penna, e o gentil e musculoso Juarez transforma-se em Milita Namur. Um peão que observa Juarez desfilar no Terreirão com a autoridade de um legionário romano pensa alto: "Caraca, mané! Olha a saia do bruto!"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adagoberto tem dois pratos de metal na mão e bate um contra o outro. O estrondo e a gargalhada anunciam: é hora de as Caricatas brilharem em Ipanema. Em pouco tempo, o quarteto some entre as 50 mil pessoas que acompanham a Banda pelas ruas do bairro, num ritual que se repete há 43 anos e que foi tombado, em 2004, como patrimônio cultural da cidade. Desde 1964, malucos e caretas, bichas e espadas, mocinhas e sapatões - além dos infalíveis batedores de carteira - sacodem-se ao som da Banda. O naipe de metais toca marchinhas, sambas-enredo e clássicos do cancioneiro brasileiro, como Carinhoso, que sempre encerra o desfile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Charles Henri pinta cabelos em Copacabana. Aleksander Santos é fisioterapeuta. Hoje, Charles é Carmen Miranda e Aleksander é um "malandro à moda antiga, como os do Bando da Lua". O entorpecente cheiro de maquiagem não parece incomodar a legião de turistas e curiosos que interceptam o casal. Claudia Sanchez, mexicana, pede uma recordação da Banda ao lado das celebridades. "Tiramos umas 80 fotos hoje", orgulha-se Charles, no fim do desfile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Josafá Carvalho está completamente bêbado, mas ainda equilibra sobre a cabeça um enorme chapéu de plumas. Das orelhas pendem frutas tropicais sintéticas - cajus, principalmente. O peito, coberto por dezenas de colares, ostenta um sutiã de globos espelhados. Preso por uma coleira como se lulu fosse, vem o Produto Interno Bruto, o PIB, um falo de espuma de um metro de comprimento. "Daqui a pouco vocês vão sentir a aceleração do crescimento dele", anuncia, antes de convidar um grupo de foliões para uma foto. “Pode vir, a família de vocês já sabe de tudo”, diz Josafá, enquanto acaricia o mascote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antônio Martins é zelador do portentoso edifício Michelangelus. Acompanha aflito a passagem da multidão à beira-mar, em torno dos bem-cuidados canteiros em frente ao prédio. Frágeis faixas de plástico cercam as plantas que, garante, saem ilesas da festa. Atrás das grades de outro edifício, o impassível José Américo assiste ao desfile à distância. “Aqui é mais seguro”, confessa o porteiro, com um olho nas câmeras de segurança e o outro num grupo de carecas bigodudos e musculosos que passam requebrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 2004, o cartunista Jaguar decretou, desgostoso: "A Banda acabou. Virou um bloco de travestis, perdeu completamente o sentido”. Num indefectível traje branco, José Rui, também fundador do grupo, garante que o desfile tem a mesma cara dos anos 60. “Acolhemos quem quiser se divertir”, explica, enquanto passeia entre a multidão com a finesse de um mordomo inglês. "No fim, nossa organização desorganizada sempre dá certo", orgulha-se, antes de elogiar os instrumentistas que animam o desfile. “Temos oito tubas. Oito tubas!”, contabiliza, entre um encontrão e outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Banda passa e a música das oito tubas dissipa-se no ar. Latinhas de cerveja, garrafas d`água e serpentinas ficam pelo chão. O carro que fecha o desfile é o dos lixeiros. Munidas de vassoura e pá, Marinete Silva e Solange Alves têm a missão de apagar rapidamente os vestígios de que, há 20 minutos, 50 mil pessoas sambavam na Vieira Souto. "É divertido, mas eu bem que queria uma folga no carnaval", queixa-se Solange. Marinete, mãe de três filhos, entra no clima da folia: "Varro com prazer, posso trabalhar dançando", diz, rodopiando com a vassoura como se fosse um estandarte. Um fiscal se irrita com a falação e ordena que a dupla volte ao trabalho. Em alguns minutos, a rua é novamente aberta para os carros. A Banda passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Texto publicado no site &lt;a href="www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4980398563330128518?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4980398563330128518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/banda-vai-passar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4980398563330128518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4980398563330128518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/banda-vai-passar.html' title='A Banda Vai Passar'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-5838588888924352748</id><published>2009-07-14T09:49:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T09:54:15.843-07:00</updated><title type='text'>O Mistério das Vacas de São Cristovão</title><content type='html'>63 Mimosas Dentro de Um Armazém no Subúrbio Carioca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2008&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma movimentação diferente vem chamando a atenção dos moradores da pacata Rua Amazonas, no bairro de São Cristóvão, Zona Norte do Rio. Há cerca de um mês e meio, caminhões vindos de São Paulo começaram a descarregar dezenas de grandes vacas brancas num prédio onde funcionava uma fábrica de roupas, hoje desativada. Curiosos, os moradores passaram a aparecer de vez em quando para espiar o que está acontecendo. O curral já conta com 63 animais - mas nunca se ouviu um único mugido. De domingo a domingo, o artista plástico Valério Bruno e sua equipe chegam ao galpão por volta das 8h, sem hora para sair. Dependendo da encomenda, a missão do dia pode consistir em pintar, adornar, ou mesmo serrar as pobres mimosas ao meio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sábado, 18 de agosto. Há vacas de todas as cores e tipos espalhadas pelo galpão. No chão, ferramentas, tintas e latas de produtos químicos. O cheiro é fortíssimo e nauseante. Valério está às voltas com a missão de fazer com que uma das bovinas fique parecida com um kiwi. Não sabe se deve usar pó de serragem ou pelos de sisal para reproduzir no corpo do ruminante a exata textura da casca da fruta. Orgulhoso, mostra uma gigantesca rodela de limão que fez em resina para adornar uma outra vaca - essa foi transformada em caipirinha. Nenhuma, garante, lhe deu tanto trabalho como a Vacamujo, mistura de vaca com caramujo. "Ela também lembra um orelhão", informa o artista. Foram dez dias só para moldar a esfera roxa acoplada às costas do animal. "Sou um cara muito impaciente, mas fico calmo fazendo esse tipo de trabalho".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valério já perdeu a conta de quantas vacas alterou desde que foi contratado pela organização da Cow Parade, que vai espalhar mais de cem réplicas de vacas em fibra de vidro, estilizadas e decoradas por designers cariocas, por áreas públicas do Rio. A exposição foi idealizada pelo suiço Walter Knapp. Ele pediu ao filho Pascal, artista plástico, que desenvolvesse um molde na forma de vaca que pudesse ser reproduzido e pintado de diferentes maneiras. Uma pequena exposição com as primeiras obras foi realizada em Zurique, em 1998. A idéia acabaria arrematada por um empresário americano de passagem pela cidade, que levou o rebanho para Chicago - sede da primeira Cow Parade, em 99. Desde então, as vaquinhas estiveram em 52 cidades nos cinco continentes. A sacada dos Knapp se tornou um empreendimento multimilionário&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tinta vermelha, Diogo Russo dá os últimos retoques na sua vaca. Ela se chama Elisa, e tem o Arpoador pintado de um lado e o Morro Dois Irmãos do outro. Diogo é um dos artistas que vêm ao galpão pintar a própria vaca - outros apenas delegam o trabalho à equipe de Valério. Cada serviço é orçado de acordo com a dificuldade e a mão de obra exigida. Egresso da construção civil, o pedreiro André Alves está empolgado com o novo trabalho. A tarefa que mais o inspirou até agora foi ajudar o desenhista industrial André Havt a colar pedras que imitam o calçadão da orla na vaca Cowpacabana. "Descobri que argamassa com cimento é melhor para colar. Isso ninguém aqui sabia, eu trouxe da construção para a arte", orgulha-se o pedreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Como? Tem artista que não faz a própria vaca? Não sabia disso", espanta-se Bruno Bertani, designer, autor e executor de uma das mimosas mais originais da exposição. Ele levou seis semanas para comprar o material e cobrir todo o corpo de sua vaca - tetas inclusive - com letrinhas de teclado de computador. As teclas foram adquiridas em ferros-velhos a R$ 4 o quilo. "Conseguir teclas pretas foi difícil, porque esse tipo de teclado é mais novo e ainda não chegou aos ferros-velhos", explica Bruno, que é dono de uma empresa de design e já participou de uma exposição artística de sutiãs estilizados. O professor de artes Marcelo Ghizi pinta as últimas letras da sua Vaca Gentileza, inspirada nos dizeres e na tipografia, agora cult, do profeta: "Os escritos dele são a maior manifestação de arte popular a céu aberto do mundo", exalta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os projetos da Cow Parade foram selecionados por um júri de artistas e designers. Mas o que define realmente os croquis que chegarão às ruas é o interesse de um patrocinador disposto a pagar R$ 35 mil para ter sua marca impressa na base que sustenta a vaca escolhida. Uma empresa de telefonia está bancando 37 projetos. Ao fim da exposição, em novembro, as vacas serão leiloadas - e o dinheiro, remetido para instituições de caridade. Arrematada por US$ 148 mil na Cow Parade Dublin, a vaca Waga-Moo-Moo, do artista plástico John Rocha, é a recordista de preço. Hoje, rumina como recepcionista de um restaurante na capital irlandesa. Entre os colecionadores mais célebres estão Nelson Mandela, J.K Rowling, Ringo Star e a rainha da Jordânia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Internet, a Cow Parade é alvo de críticos que a acusam de ser apenas uma estratégia de marketing disfarçada de arte e questionam a liberdade de expressão no evento. Na edição nova-iorquina de 2000, o projeto do cineasta David Lynch - uma vaca sem cabeça, com uma marca de mordida e a inscrição "coma o meu pavor" - foi censurada pelos organizadores. Política, sexo e religião são temas vetados na exposição. Em 2004, um grupo intitulado Grafiteiros Militantes de Estocolmo seqüestrou uma das vacas expostas na capital sueca. Para não decapitar a refém, exigiu que a organização do evento declarasse as peças "não-arte" e as retirasse imediatamente das ruas da cidade. Para atrair a atenção da mídia, os terroristas divulgaram fotos à la Al-Qaeda, em que dois encapuzados posavam com serras na mão ao lado da vítima indefesa. O desfecho do caso foi trágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 30 de agosto: a preparação entra na reta final. Faltando menos de um mês para a inauguração, em 25 de setembro, os vaqueiros de São Cristóvão correm contra o tempo. Valério e André aparentam cansaço: o cronograma mais otimista diz que o trabalho da equipe só será concluído com algumas noites viradas. Denise Bruno, irmã de Valério, usa a experiência de aderecista de escola de samba para retocar as vacas. Com delicadeza, mistura, com a ajuda da filha, as tintas em um copo. "Nunca levamos a fama, mas isso é assim mesmo, já estamos acostumados", resigna-se. A Vakiwi está quase pronta - a serragem funcionou bem e o resultado é incrível. A equipe trabalha sem pausa, o cheiro de tinta e verniz é cada vez mais forte. Como se não bastasse a correria, alguém chega e informa, no meio do expediente: "Ainda devem chegar mais umas 30 vacas para fazer".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Publicado no site &lt;a href="www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-5838588888924352748?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/5838588888924352748/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-misterio-das-vacas-de-sao-cristovao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/5838588888924352748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/5838588888924352748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-misterio-das-vacas-de-sao-cristovao.html' title='O Mistério das Vacas de São Cristovão'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-3355512404043064978</id><published>2009-07-14T08:33:00.000-07:00</published><updated>2009-07-14T11:07:57.978-07:00</updated><title type='text'>A Bela Encarcerada</title><content type='html'>O Concurso de Beleza do Maior Presídio Feminino do Rio de Janeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Inaiê Batista, 23 anos, solteira. Cor preferida: rosa. Gosta de pagode e sonha ser um grande orgulho para a mãe. Valeria Melo, 28 anos. Cor preferida: preto. Gosta de rock e sonha estudar Letras quando sair da cadeia. Maria Argentina, 24 anos, solteira. Cor preferida: vinho. Gosta de música romântica e sonha ser mãe. Dione Pires, 26 anos, solteira. Cor preferida: rosa. Gosta de hip hop e sonha "ser reintegrada à nossa sociedade livre". Inaiê, Valeria, Maria, Dione e mais oito internas disputaram, na terça 4, a grande final do Garota Talavera Bruce 2007, o concurso que elegeu a nova musa do maior presídio feminino do Rio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No "Meiga Salão", as aspirantes a rainhas do presídio recebem os últimos retoques em maquiagens e penteados. Na cadeira do cabeleireiro, Elisângela Souza, 27, acredita que a coroa será sua. Há uma semana, a bela e tímida morena, de expressão distante, espera o alvará de soltura para deixar a cadeia. Não se sabe ao certo quando ele virá. Depois de cumprir dois anos e quatro meses por extorsão, sonha seguir carreira como modelo. No grande dia, todas parecem contentes e apreensivas. Há um clima de afeição entre as candidatas e a equipe de embelezamento. Talvez porque o encanto produzido ali é algo tão raro em lugar como esse. E vai se dissipar com o fim do concurso, quando as modelos voltarem às suas celas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumprindo penas por tráfico de drogas, roubo, seqüestro, e outros delitos, as mulheres do Talavera Bruce continuam tão vaidosas quanto quaisquer outras. Ainda mais antes de entrar em uma passarela. "É uma experiência riquíssima, elas são muito carentes de afeto. A gente acaba se envolvendo com essas histórias", emociona-se a maquiadora Mônica França. Para não fazer feio diante do júri, as candidatas receberam aulas de postura na passarela. Fumando sem parar, a professora Mariana Dias, 20, modelo profissional, aguarda o grande teste das alunas: "Esse desfile é uma espécie de fuga para elas", filosofa. "Quando acabar o concurso, vou ter que inventar outra coisa para passar o tempo", prevê Claudia Machado, 34, enquadrada num dos números mais populares no Talavera Bruce: o doze, artigo penal relativo ao tráfico de drogas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho para o salão onde será realizado o desfile, passa-se pelas grades das galerias onde ficam as internas. Numa delas, algumas presas fazem, em tom de troça, o seu próprio desfile. As câmeras afoitas logo apontam para as meninas, que debocham e brincam feito crianças. Pela primeira vez, a cadeia impõe sua terrível angústia aos visitantes. As grades onipresentes, as carcereiras e seus cacetetes, a disciplina: estamos numa cadeia de alta segurança, onde estão presas 357 mulheres. Aqui o tempo precisa ser vencido. Para enfrentar o ócio, as detentas estudam, trabalham - na cozinha, na padaria ou em pequenas fábricas - e fazem oficinas de artes. O trabalho rende um salário mínimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desfile é num salão de paredes amarelas e chão de cimento azul. Um grande tapete vermelho e pequenas violetas dispostas pela passarela dão o tom glamorouroso do concurso. A torcida, formada por outras internas e convidados, enche a sala. Quando os jurados começam a entrar, os jornalistas partem para cima. A cantora Fernanda Abreu é logo cercada por quase todos eles. A seguir vem o deputado estadual Marcelo Freixo. "Aqui no Talavera se trabalha com a dignidade, com a valorização humana", ele discursa. Vai ser difícil avaliar a beleza das candidatas? "Tô nervosíssimo. Sempre sou chamado para as rebeliões, esse é o primeiro concurso de beleza".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As 12 candidatas entram na passarela de duas em duas. De shortinhos jeans, camiseta azul e havaianas, desfilam elegantes e seguras, para encanto da platéia e do júri. A primeira dupla, Liliane e Jussara, caminha sorrindo. A torcida parece preferir Lili: "Ela é bonita e humildona", diz dona Luzia Oliveira. Em quase todos os juízos, escuta-se "é humilde" ou "não é humilde". Parece ser o atributo mais importante no código moral particular das cadeias. Atrasado, o carnavalesco Milton Cunha entra roubando a cena, com uma coroa na cabeça. "É a coroa da miss. Ele que vai entregar", alguém explica. Mas a torcida vai à loucura mesmo quando a farta mulata Daiana Santana passa na passarela. "É tudo original, nada comprado", diz a apresentadora. Outra favorita é Dione Pires. Quando ela passa, uma guarda comenta: "Olha o fuzil tatuado nas costas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa segunda etapa, as modelos desfilam em trajes de gala ao som de hip-hop. As roupas e as jóias foram emprestadas para o concurso. A disputa agora está entre Daiana, a boliviana Maria Argentina e Dione. Quando a última vem fulminante para a passarela, o fio do som é desligado. "Sabotagem?", alguém pergunta. Majestosa, ela parece não ligar e desfila sob o silêncio. O júri se impressiona. Fim do desfile. Todos aguardam pelo resultado. O pagodeiro Gustavo Lins, por quem as mulheres se desmancham e jogam beijinhos, resolve dar uma palhinha, arrebatando facilmente a torcida. Fernanda Abreu decide fazer o mesmo: "Garota carioca, suingue sangue-bom". Silêncio: quase ninguém conhece a canção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem mais delongas, o júri anuncia o resultado: a vencedora é a bela Dione, 1,67m e 54kg. Emocionada, ela sobe ao palco para receber a faixa de Daniela Ramos, a eleita do ano passado. "Hoje nós somos vistas como queremos ser", discursa. Os prêmios são uma TV e produtos de beleza. Cercada por microfones, Dione, presa após assaltar um caminhão das Casas Bahia, diz: "Eu me sinto uma estrela, me sinto livre". Ela foi espancada recentemente por outras internas e quase não participou do concurso. Mãe de dois filhos, a rainha do TB revela o sonho de estudar direito, "para defender o justo". Mais tarde, quando esperamos o táxi em frente ao presídio, parece que ela vai sair a qualquer momento, com seu vestido rosa, exibindo a coroa pelas ruas de Bangu. Mas ela não vai. Ao nosso lado, um vira-lata encardido e livre late para o vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Texto publicado no site &lt;a href="www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-3355512404043064978?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/3355512404043064978/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/bela-encarcerada.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/3355512404043064978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/3355512404043064978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/bela-encarcerada.html' title='A Bela Encarcerada'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-7487348472918946545</id><published>2009-07-08T09:51:00.000-07:00</published><updated>2009-07-08T11:08:54.699-07:00</updated><title type='text'>Nova Iorque à Espera do Homem Gordo</title><content type='html'>Depois de caminhar por mais de um ano para perder peso, Steve Vaught chega ao seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Meu nome é Steve Vaught, tenho 39 anos, um casamento feliz, sou pai de duas ótimas criancas e levo uma vida tranqüila em Southern California. Você deve pensar que, tendo tudo isso eu sou feliz, mas não, eu não sou. Eu não sou feliz porque sou gordo, e ser gordo faz todos os dias infelizes". Assim escreveu, ao começar sua incrível jornada, o homem gordo que vem entusiasmando milhões de pessoas e ajudando a conscientizar os norte-americanos sobre a urgência de se discutir soluções para melhorar a qualidade da alimentação no país e combater a obesidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acontece quando um sujeito pesando 186 kg sai um dia pela porta de sua casa em San Diego, Califórnia, com uma mochila nas costas e começa a caminhar rumo à Nova Iorque, no extremo oposto do país, a mais de 4500 Km de distância? Poderia ser só mais uma história sobre um andarilho e uma prova de superação, mas, por algum motivo, milhões de americanos transformaram Steve Vaught em um herói. Em um país onde dois dos maiores símbolos nacionais são os automóveis e os fast-foods, caminhar pela estrada levantando a bandeira de uma alimentação mais saudável pode ser uma grande subversão à lógica do sistema.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Steve, um ex-mariner, que viveu por cerca de duas décadas afundado em uma depressão que fez com que ele engordasse até se tornar um obeso mórbido, está cruzando a América com dois objetivos: perder peso e recuperar o controle sobre sua vida. Depois de 13 meses e mais de 4 mil quilômetros, a longa jornada termina na próxima segunda-feira, dia 8 de maio, data em que Steve chegará a Nova Iorque acompanhado por pessoas que agora o seguem pela estrada;  Forrest Gump em king size prepara-se para dar seu sprint final no coração da Big Apple.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O "homem gordo ", como ele se intitula no website (www.thefatmanwalking.com) onde conta as aventuras da viagem, alternando-as com reflexões existenciais e grandes sacadas sobre a sociedade americana baseadas no que vai vendo durante o percurso, virou uma inspiração para inúmeras pessoas e um fenômeno de audiência. Só em março, mais de 2 milhões de internautas acessaram a página de Steve, que, além de ter o conteúdo atualizado constantemente, vende camisetas com a sua foto sobre a frase " Essa é a jornada". Custam U$ 29, dos quais um será revertido para fundos de caridade, e podem ser encomendadas desde o tamanho pequeno até o incrível extra extra extra extra extra large (5XL).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quem pensa que o último herói americano está disposto a capitalizar indiscriminadamente em cima de sua imagem parece estar enganado – uma empresa que vende tratamentos para emagrecer chegou a oferecer 5 milhões de dólares para tê-lo como garoto propaganda. Nada feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu não vou fazer uma jornada espiritual em busca da minha alma para depois vendê-la  pelo lance mais alto ", afirmou Steve em uma entrevista realizada por e-mail, no último dia 4 de maio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jornal The Observer retratou o fenômeno Steve com o humor mordaz dos ingleses: “Um homem gordo caminha...e a América o transforma em um herói da contracultura”. Decerto, determinação e coragem são alguns dos mais importantes atributos para a obtenção do sucesso, dentro da lógica do American Way of Life. Steve conseguiu a proeza de aliar a estas características uma imagem de firmeza moral e, principalmente, de sinceridade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De mariner a obeso mórbido.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido na pequena cidade de Youngstown, Ohio, Steve cresceu em meio à decadência da região produtora de aço. A infância e a adolescência foram conturbadas, com um padrasto agressivo e uma escola barra-pesada. Quando abandonou a cidade para ingressar no corpo dos fuzileiros navais, era então um garotão de vinte anos no auge de sua forma física. Após deixar os mariners, se envolveu em um acidente de carro onde morreram duas pessoas. A tragédia o levou a uma depressão profunda e prolongada. A sua vida se tornou um calvário de culpa e descontrole . Nos anos 90, Steve mudou-se para a ensolarada Califórnia em busca de uma vida melhor, arrumou emprego em uma oficina mecânica, casou-se e teve dois filhos. Recorria freqüentemente a antidepressivos mas, apesar do tratamento e da aparente estabilidade de sua vida, o sofrimento persistia. Chegando aos 40 anos, ele via a sua saúde à espera de um anunciado xeque-mate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, Steve percebeu que não era mais capaz de percorrer toda a extremidade de um supermercado sem esgotar suas forças. Só então se deu conta da gravidade de sua situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu pensei, que tipo de bastardo eu era para abandonar meus filhos justo quando eles mais precisam de mim. Eu estava me matando de uma forma covarde".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, obteve a bênção da família e caiu na estrada. Levava apenas uma mochila com uma barraca de camping, roupas, suprimentos e uma arma para se proteger dos imprevistos do caminho. A rota escolhida para começar a viagem foi a velha 66, glorificada pelos escritores da geração beat, por onde passaram Jack Kerouac e toda sorte de aventureiros, doidões e peregrinos. Mas, onde muitos  easy riders buscaram se perder na imensidão da América profunda, o homem gordo caminha sozinho para se encontrar espiritualmente e recuperar a vontade de viver. Através de campos, imensos vales, beirando os grandes lagos pela estrada que não acaba nunca, Steve vai encontrando lugares e personagens esquecidos, de fazendeiros a matutos, de índios a amishes. A América se revela crua, diversificada e essencialmente humana aos seus olhos.Uma equipe de televisão o segue há algum tempo e registra tudo para fazer um documentário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Esta é a verdadeira América. Apesar de todos os seus defeitos, é um lindo lugar"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Obesos já são quase um terço da população:&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com as últimas pesquisas, os obesos formam entre 27 e 31% da população norte-americana. Recentemente, uma projeção feita pelo Centro de Controle de Enfermidades do governo norte-americano revelou que até 2010 mais da metade dos indivíduos poderá sofrer deste mal. A quantidade de diabéticos também cresce junto, vertiginosamente: só de 1990 a 1999, o acréscimo foi de 40%. Sobrepeso e diabetes estão estreitamente relacionados. Tudo isso leva os médicos a formularem uma hipótese trágica: as próximas gerações de norte- americanos provavelmente viverão menos do que as gerações de seus pais. A primeira vez que um fenômeno como esse seria registrado em uma nação desenvolvida na história moderna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curiosamente, a porcentagem de obesos é maior entre afro-descendentes e latinos. As mulheres negras lideram o ranking do sobrepeso, seguidas pelos homens e mulheres mexicanos.A explicação pode ser simples: os pobres nos Estados Unidos costumam ingerir alimentos mais calóricos, como fast-foods e comida gordurosa em geral.O mesmo fenômeno foi verificado recentemente no Brasil, muito joelho e X-tudo e pouca alimentação balanceada no cardápio do povão. Motivos: preço e pressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;De volta à estrada&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Steve observa em seu caminho os hábitos alimentares do país:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nos primeiros quilômetros da viagem, passei por 25 fast foods e apenas uma loja de frutas. Nós somos a maior economia do mundo, deveríamos ser o país onde se come melhor, mas só comemos porcaria."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas para ele, os grandes culpados não são empresas de fast food como McDonalds e Burger King e, sim, a ignorância a respeito do que significa ter uma alimentação saudável da sociedade norte-americana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quem é responsável por essa situação? Você é o responsável! No fim das contas, cada um é responsável por aquilo que compra e permite que entre em seu corpo. Culpar uma corporação por seus problemas de saúde é ridículo. Eles nos vendem aquilo que nós aceitamos. Se exigirmos apenas comidas saudáveis eles nos oferecerão exatamente isso ".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A multimilionária indústria de tratamentos e programas para emagrecer é vista por Steve como uma conseqüência natural do processo que se inicia na má escolha dos consumidores na hora de comprar a própria comida e na aceitação de uma vida sedentária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eles só estão oferecendo às pessoas o que elas querem. Se os indivíduos fossem mais responsáveis com eles mesmos, se confiassem nas suas habilidades para resolver os seus dramas, essa indústria não teria o que vender".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizer que a obesidade é uma enfermidade seria uma desculpa para que as pessoas recorressem a medicamentos, ao invés de se esforçarem por uma vida melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Chamar a obesidade de doença ou atribuir a culpa a uma corporação significa dizer que isso está fora do seu controle. Dessa forma, é criada uma indústria adicional que, com satisfação, lhe vende a cura para o seu problema. A indústria da dieta neste país é uma mina de ouro que lucra 1,6 bilhões de dólares por ano. Nós permitimos que isso aconteça porque nos recusamos a aceitar o fato de que somos os grandes responsáveis por essa situação".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O  exemplo Steve já começa a gerar seguidores. Dennis Kinsh, um homem que sofre de síndrome do pânico está indo a pé de Los Angeles a Chicago em nome dos milhões de norte-americanos afetados por esse mal. Perguntado se, agora que é uma voz para muitas pessoas, pretende manifestar suas opiniões sobre o Governo Bush ou a Guerra do Iraque, Steve responde com uma reflexão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu acho que o melhor que eu posso fazer é falar sobre a experiência que tive, minha busca pelo auto-fortalecimento e uma melhor qualidade de vida. É claro que há implicações políticas que interferem nesses objetivos, mas cada um deve ter sua própria visão de como as decisões políticas estão afetando a sua vida. Minha opinião sobre assuntos políticos é praticamente irrelevante."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Nova Iorque à vista&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na próxima segunda feira, dia 8 de maio, a caravana de Steve cruzará a ponte George Washington, que liga Nova Jersey à Nova Iorque, onde será o gran finale de sua jornada. Incentivadores, curiosos, câmeras de televisão e jornalistas o esperam. Ele diz não saber o que será do futuro, está ansioso para rever a família, mas, confessa sentir-se triste ao abandonar a estrada – perde uma grande amiga. Com cerca de 50 quilos a menos, ainda está gordo, mas, diz que aprendeu que fortalecer a mente e levar uma vida equilibrada são mais importantes do que perder peso. Faz questão de definir esse ponto com um lema pessoal: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cure a sua mente e o seu traseiro irá segui-la”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Matéria feita para um grande site que não foi publicada - não sei explicar bem o motivo. Acho que eles estavam falindo e não tinham como pagar... Enfim, eu estava morando em Barcelona e li sobre esse personagem incrível, extremamente americano, no El Mundo. Na época, a última página deste jornal trazia todos os dias um perfil diferente, sempre muito bem escrito. Eu adorava ler esta parte. Fazer a matéria foi muito importante para mim, pois descobri uma fonte de prazer surpreendente na escrita. Não tinha computador, então escrevi a maior parte em uma biblioteca pública do bairro de Valcarca, onde morei em uma pensão por alguns meses. Escutava um CD da &lt;a href="http://www.youtube.com/watch?v=fwdFhWNL0_M&amp;feature=related"&gt;Elizabeth Cotten&lt;/a&gt;, cancioneira folk-blues americana, e a trilha sonora do documentário do Scorcese sobre o Bob Dylan. Essas canções e as histórias do Steve foram desenhando uma América perdida  na minha mente. Estranho e fabuloso foi depois reencontrá-la, em parte, nas incríveis paisagens do filme Paris Texas, de Win Wenders. &lt;br /&gt;Tenho uma ligação afetiva forte com a história do Steve e com a reportagem. Apesar de alguma ingenuidade de principiante, achei o resultado satisfatório, principalmente, porque consegui entrevistar o cara por email, no meio da jornada dele. É a primeira vez que publico este texto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-7487348472918946545?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/7487348472918946545/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/nova-iorque-espera-do-homem-gordo.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/7487348472918946545'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/7487348472918946545'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/nova-iorque-espera-do-homem-gordo.html' title='Nova Iorque à Espera do Homem Gordo'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-4595777081878234205</id><published>2009-07-07T16:15:00.000-07:00</published><updated>2009-07-08T11:01:27.179-07:00</updated><title type='text'>O Carioca e os Animais Silvestres</title><content type='html'>Cobras, lagartos, gambás e macacos: nada mais normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23/09/2006&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro Schprejer e Tiago Carvalho  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Extasiada, a menina Clara, de 7 anos, observa os macacos que a rodeiam próximo a um bambuzal no Jardim Botânico do Rio. São cerca de 20 da espécie conhecida como macaco-prego – o maior dos primatas cariocas, com cerca de um metro de comprimento. Sobem freneticamente nos galhos, correm pelo chão e se balançam nos bambus. Estão atrás de comida, mas não é permitido alimentar os animais no parque. Um homem gorducho de meia-idade, também cercado pelo bando, dá uma bronca na mãe, que deixou a bolsa num banquinho para ver as macaquices mais de perto. “A senhora não sabe que, enquanto um macaco te distrai, outro rouba a sua carteira?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O alerta, claro, não passa de paranóia. Macacos ainda não são vistos comprando bananas em supermercados com dinheiro roubado de velhinhas inocentes. Mas várias espécies de animais silvestres - como o macaco-prego, a preguiça, os ouriços-caixeiros, o esquilo caxinguelê, o gambá e o cachorro-do-mato - convivem com os moradores de bairros próximos às áreas florestais da cidade. Além dos mamíferos, grande variedade de aves, cobras, lagartos e até jacarés circulam pelo perímetro urbano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Empreeiteiras enfrentam os jacarés &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em áreas como o Jardim Botânico e alguns trechos do Parque Nacional da Tijuca, as relações das duas cidades - a dos homens e a dos bichos - são mais harmoniosas. Diretor do Jardim Botânico, Celso Bredariol justifica a curiosidade dos freqüentadores: “É incomum dar de cara com um bicho-preguiça numa cidade grande. Isso faz com que o sujeito não resista à vontade de dar um biscoitinho pro macaco, ainda que a gente oriente as pessoas a não alimentarem os animais”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora dos parques, a convivência não é tão pacífica. Segundo o onipresente biólogo Mário Moscatelli, que há cerca de 15 anos trabalha na recuperação de ecossistemas ameaçados na cidade, a fauna carioca é apenas “residual”. Ele conta que os principais habitats dos bichos do Rio correm perigo. “As baixadas estão sendo aterradas pela especulação imobiliária. Isso expulsa os jacarés, que vivem em brejos e córregos. Os bichos estão cercados pela cidade, vivendo em valões imundos”, protesta. Ainda segundo o biólogo, estão em risco os maciços da Pedra Branca, Tijuca e Gericinó, onde a cidade avança com rapidez e a fiscalização não é capaz de evitar a caça e as construções irregulares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Moscatelli reconhece, entretanto, um avanço na consciência ambiental dos cariocas: “Há 15 anos atrás, qualquer jacarezinho era morto a pauladas. Hoje, pelo menos, as pessoas chamam os bombeiros pra resgatar o animal”. Entre janeiro e setembro de 2006, eles salvaram quase 2 mil animais silvestres – em média, mais de dez ocorrências por dia, quase o dobro de todo o ano de 2003. A lista vai de cobras (responsáveis por quase um terço dos casos) até tamanduás, capivaras, onças pintadas e jaguatiricas, entre dezenas de outras espécies. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Ratos, baratas e urubus&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os animais resgatados geralmente são levados para os zoológicos do Rio ou de Niterói, onde recebem cuidados veterinários antes de ser reintroduzidos em seus habitats. O gerente de biologia da Fundação Rio Zôo, Anderson Augusto, conta que muitos resgates são feitos em vão. “Às vezes, o animal está em seu habitat, na Floresta da Tijuca, por exemplo, quando é avistado por visitantes. Assustados, eles chamam os bombeiros, que acabam trazendo o bicho para cá”, conta. Segundo o biólogo, muitos animais selvagens são adotados por pessoas que tentam mamntê-los como bichos de estimação: “Depois de algum tempo, elas percebem que aquela espécie não é domesticada. Deixa de ser um filhote bonitinho”.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Pessimista, o colega Moscatelli prevê um futuro pouco animador para o meio ambiente do Rio, apesar da simpatia dos bichos da cidade. “O cenário de destruição é cada vez pior. Nesse ritmo, nos próximos 20 anos, a fauna carioca será de ratos, baratas e urubus”, adverte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*Para o site &lt;a href="http://www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-4595777081878234205?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/4595777081878234205/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-carioca-e-os-animais-silvestres.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4595777081878234205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/4595777081878234205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/o-carioca-e-os-animais-silvestres.html' title='O Carioca e os Animais Silvestres'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-6259620636196372068</id><published>2009-07-07T14:59:00.000-07:00</published><updated>2009-07-07T15:42:37.619-07:00</updated><title type='text'>Maratona Etílica</title><content type='html'>Investidores, executivos e jornalistas disputam o prêmio de pinguço municipal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29/01/2007&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEDRO SCHPREJER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sábado, 27 de janeiro, Leblon, bairro nobre do Rio. Cem competidores aguardam o início da disputa. Os organizadores distribuem camisas e números de identificação. Dão as últimas instruções: homens devem beber 42 chopes; mulheres, 21. Quem for visto jogando sequer um gole fora está eliminado. "E não adianta chorar”, avisa Gustavo F, idealizador da competição. A Segunda Baratona Internacional do Rio de Janeiro – a maratona dos bares – está prestes a começar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os atletas do copo se preparam para enfrentar uma batalha etílica: uns se concentram, outros bebem água e comem alimentos doces ou carregados de azeite para preparar o estômago, prestes a receber litros e litros de chope. O cortejo seguirá pelas ruas do bairro, passando por oito bares. Para manter a animação de pinguços e simpatizantes, foi contratada uma bateria de escola de samba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Baratona foi criada no ano passado, com cerca de 30 participantes, para comemorar o aniversário de Gustavo F. A competição cresceu na proporção da barriga dos favoritos ao título: agora são 75 homens e 25 mulheres. A maioria tem entre 25 e 30 anos e trabalha no mercado financeiro, razão pela qual muitos não querem ter o nome citado na reportagem. "Quem colocaria dinheiro na mão de um investidor que bebe 42 chopes num dia? Isso seria loucura", explica-se um "anônimo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para se inscrever, os competidores pagaram R$ 150. A quantia inclui tudo o que se vai beber, uma camisa oficial e um DVD com os melhores e piores momentos da Baratona. Segundo a organização, o dinheiro que sobrar será remetido para os Alcoólicos Anônimos."Quarenta e dois é moleza"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guilherme Camunga e os irmãos Felipe e Guilherme Kling são advogados e vieram de Petrópolis para o desafio. Indicado pelos amigos como um dos favoritos ao título, Camunga se diz confiante: "Quarenta e dois é moleza". A mulher só o deixou descer a serra depois da intervenção dos amigos. Para a própria segurança, os três petropolitanos trouxeram com eles Marcelo Samu, convocado para dirigir o carro e não deixar que os amigos percam as estribeiras. "Sou o piloto da ambulância", brinca Samu, que acabaria tendo que convencer um dos camaradas a descer de uma árvore depois do chope nº 30.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A largada é dada às 14 horas. Em duas filas, os atletas esperam o primeiro copo. Para contabilizar quanto cada participante ingeriu e controlar a distribuição dos chopes, foram chamados amigos que não bebem ou não querem beber e estagiários dos organizadores. Recebido o copo, o fiscal assinala um x a mais na camisa do pinguço. O controle é tão rígido como o de um banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na primeira Baratona, os fiscais se cansaram e abandonaram o trabalho. Os gatos pingados que resistiam bravamente "lá pelo chope 35", foram declarados campeões. Há controvérsias, porém: num ato de bravura, o advogado Eduardo Rossi teria continuado, sozinho, o percurso dos bares. Chegou a ter a sua fotografia – vestido de padre irlandês – publicada no Jornal do Brasil. Na época, Eduardo trabalhava para o BNDES e a reportagem que narrava o seu feito acabou no clipping da assessoria de imprensa, ao lado de notícias sobre financiamentos de casas populares e empréstimos do governo. "Cheguei a dar autógrafos no elevador", gaba-se o autoproclamado ex-campeão, que afirma estar rumo ao bi-campeonato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jornalista Mila Chaseliov é apontada como uma forte candidata ao título feminino. "Venho me preparando ao longo de minha vida para este tipo de torneios", revela. A engenheira Heloisa Cunha veio de Curitiba a trabalho e resolveu participar. Ana Paula Franco, sua amiga, afirma ter começado a beber há apenas uma semana: "Acho que descobri minha vocação". As duas trouxeram a "técnica" Ana Leitão, responsável por fornecer garrafas d`água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;"Aqui tem muita gente de sobrenome"&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em matéria de equipe de apoio, ninguém supera Carolina Cury, que conta com um cardiologista, seu pai, para administrar o rendimento na competição. Sentado num dos bares do cortejo ébrio, Celso Cury orienta a filha pelo celular, informando quando beber água ou comer doces. A preparação começou dias antes, com um regime elaborado pelo pai. "Não estou aqui para incentivar o alcoolismo. Quero que minha filha brinque, mas de maneira saudável", discursa o doutor, que promete representar a terceira idade na Baratona 2008.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 17h20, é servido o décimo chope. A distribuição é lenta, e alguns participantes começam a reclamar. Um pequena multidão acompanha a disputa, ocupando parcialmente uma das pistas da Av. General San Martin. Um grupo de jovens utiliza cones de asfalto para fechar a pista. A polícia é chamada e tenta convencer os bebuns a voltarem para a calçada. Dois rapazes de roupões e pantufas discutem com um policial. Em seguida, um terceiro se aproxima, dirigindo-se ao representante da lei: “Você sabe que aqui tem muita gente de sobrenome, né?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os competidores chegam ao chope 15, por volta das 19h, alguns começam a arriscar palpites sobre o possível campeão. O mais cotado na bolsa de apostas é Fred Miúdo, um homem com porte de bom bebedor, logo apelidado de Homer pelos rivais. Cerveja combina com petisco, e o ambulante Paulo Barbosa faturou bem neste sábado de sol: vendeu 40 pacotinhos de amendoim ("Um é dois, três é cinco"). Perguntado se conseguiria tomar 42 chopes em um dia, ele fica sério: "Você acha que eu tenho dinheiro para isso?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Chegar ao fim vira questão de honra.&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, começa um empurra-empurra no bar Garota do Leblon. A outrora metódica organização já não consegue controlar os impulsos primitivos das 100 pessoas que se espremem em busca do décimo oitavo copo. "Isso não é Maracanã", grita alguém. Os fiscais, que se apresentam como "staff", perdem o controle da situação. Um surge com uma espécie de tubo de mais de um metro de comprimento cheio de cerveja, botando quase tudo goela abaixo. A multidão vibra com o exibicionismo transgressor do juiz. No caos, um dos competidores, Rafael Amaral, assume o poder num fulminante "golpe de Estado". De posse da cartela que registra quanto cada um já bebeu, tenta reorganizar a fila. Em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do trigésimo quinto chope, no oitavo bar, a contabilidade já foi para a China. Chove, e muitos começam a debandar; outros seguem na disputa, determinados a vencer. A competição, porém, já não existe: os juizes estão completamente bêbados e não conseguem mais contar os chopes. Mas alguns, por uma questão de honra, permanecem determinados a chegar ao número 42.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta de 1h, cinco pinguços conseguem atingir a marca histórica de 43 copos - cerca de 13 litros de chope entornados. Fred Miúdo e Guilherme Camunga estão entre eles. Na competição feminina, Mila Chaseliov prova que a dedicação aos bares ao longo da vida dá resultados, erguendo e esvaziando o caneco número 23. Os heróis da Baratona terminam a noite sem prêmios ou torcida comemorando. Levarão para casa apenas a sensação do dever cumprido e a promessa de uma ressaca sem tamanho no dia seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*para o site &lt;a href="http://www.palmalouca.com.br"&gt;Palma Louca&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.palmalouca.com.br/"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-6259620636196372068?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/6259620636196372068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/maratona-etilica.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/6259620636196372068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/6259620636196372068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/maratona-etilica.html' title='Maratona Etílica'/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-3281989427717819679.post-6147615327334908891</id><published>2009-07-07T12:01:00.000-07:00</published><updated>2010-01-21T11:45:27.775-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/3281989427717819679-6147615327334908891?l=pedroschprejer.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/feeds/6147615327334908891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/em-breve-postarei-meus-textos.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/6147615327334908891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/3281989427717819679/posts/default/6147615327334908891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedroschprejer.blogspot.com/2009/07/em-breve-postarei-meus-textos.html' title=''/><author><name>Pedro Schprejer</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17491286300476874026</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
